Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Cuidado com as palavras!

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Escreve quem sabe

2012-12-30 às 06h00

Joana Silva

As crianças em idade precoce têm sempre como modelo os pais. Estes últimos, asseguram o bem-estar do seu filho, seja, nos cuidados básicos seja, na educação e formação da personalidade do “adulto do amanhã”. Por vezes, os pais não têm consciência do impacto de alguns comentários negativos proferidos à criança. Desconhecem que estes podem ter repercussões sérias e graves no desenvolvimento do crescimento emocional, tornando um adulto inseguro, em alguns casos, com traumas que derivaram de situações ocorridas na infância. Os pais, por vezes, não tem consciência de algumas reacções irreflectidas e até mesmo inoportunas no repreender ou “chamar a atenção” dos filhos. Posto isto, tomemos em consideração uma situação que não é assim tão invulgar de acontecer. Exemplificando, suponhamos uma criança com 2 anos de idade que juntamente com a mãe, está numa fila de supermercado. A criança insiste em mexer num objecto colorido que lhe chama a atenção e que se encontra na prateleira. A mãe ao observar tal situação imediatamente afasta a criança e verbaliza a expressão: “Sua feia! És tão teimosa!”. Terá sido a melhor atitude?! Porque não explicar à criança simplesmente que não pode mexer, porque caso estrague os pais tem de pagar. Pode-se inferir e até questionar, o que tem a haver a aparência com a insistência de mexer no objecto “proibido”?! Serão a teimosia ou a insistência más qualidades?! Efectivamente que não! Uma das primeiras referências para a criança é a progenitora, deste modo, se a criança ouvir sistematicamente que “é feia”, possivelmente a sua personalidade irá desenvolver-se acreditando que “é feia”. Ao longo do tempo esse auto conceito pode manifestar-se, por exemplo, na adolescência onde terá possivelmente dificuldades em “achar-se bonita”. A mesma desenvolveu baixa auto-estima. Uma outra situação que é igualmente frequente é o apelidar a criança de egoísta. Na infância, todas as crianças sem excepção, atravessam uma fase em que são mais egoístas. É normal e faz parte do desenvolvimento. No entanto, quando a criança ouve permanentemente dos pais que “é egoísta” poderá agir como tal em fase adulta. Perante determinada atitude menos adequada poderá justificar-se ou desculpar-se com o seguinte: “ Sempre fui egoísta desde pequeno pois os meus pais já referiam isso mesmo”. Basicamente, este adulto absorveu esta característica como sua com base no que os pais verbalizavam acerca de si na infância. Conformou-se! Ser egoísta, é um rótulo negativo e tem inúmeras consequências e, por vezes, torna-se difícil para a pessoa em questão desprender-se desta referência de si próprio.
Existem outras situações que se poderiam enumerar, no entanto, estas são as mais frequentes. Como consequência das “palavras mal proferidas”, as crianças desenvolvem uma “visão” distorcida e errada delas próprias. Dizer o que “não se sente” num momento de descontentamento perante determinada acção executada pela criança, pode ter resultados negativos. Isto porque, o “ és uma vergonha” no presente, pode expandir-se num “sou uma vergonha” no amanhã (em adulto). De lembrar que é na infância que moldamos a nossa imagem do que é verdadeiro e do falso, formando progressivamente a personalidade de quem somos.

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