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Cuidado com o Lourenço

Inteligência emocional

Cuidado com o Lourenço

Ideias

2020-02-16 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Associado ao nome “Lourenço”, ouvimos, por vezes, expressões que servem para caraterizar alguém com zelo excessivo. Trata-se de um epíteto negativo pois assinala de forma medíocre alguém com um perfil de personalidade que não é bem visto pela restante população.
O epíteto Lourenço, ou terra dos Lourenços, está associado a um administrador do concelho de Braga, que usava a sua autoridade de forma desregulada e despropositada. Trata-se de Lourenço da Cunha Velho Sotomayor, administrador do concelho de Braga no virar do século XIX para o XX.
As funções de administrador do concelho (criado pela carta de lei de 25 de abril de 1835 e suprimidos pelo código administrativo de 1936) estavam relacionadas com a supervisão de assuntos relacionados com as escolas, o recenseamento da população, a emissão de passaportes, as irmandades, os hospitais, as misericórdias e a fiscalização policial e económica.
O autoritarismo do administrador Lourenço ficou bem expresso aquando do Carnaval de 1900, como iremos ver.
Na época o Carnaval não era bem visto em Portugal, especialmente em Braga. Era considerada uma festa bruta e desordeira onde os homens diziam obscenidades! Joaquim de Vasconcelos, da Liga Patriótica do Norte, chegou mesmo a sugerir que se realizassem um pouco por todo o país sessões de esclarecimento e de civismo, inclusivamente nas próprias igrejas, de maneira a combater esta barbaridade!
O Carnaval de 1900, realizado em Braga, ficou marcado por uma grande tensão, entre os bracarenses e o seu administrador do concelho, o Sr. Lourenço.
Assim, quando já se pensava que o Carnaval não tinha significado popular em Braga, um grupo de rapazes resolveu realizar, nesse ano, uma pequena batalha com farinha, não escapando ninguém que transitasse pelo centro de Braga.
Nesse domingo, tudo correu dentro da normalidade, pois todos “brincaram, como souberam e quizeram, mas sempre dentro da ordem e dos limites do bom gosto” (1).
Para abrilhantar o Carnaval de Braga, a então “Companhia de Barracão” organizou três espetáculos no Teatro S. Geraldo, nas noites de domingo, segunda e terça-feira de Carnaval.
Na noite de domingo o espetáculo obteve um enorme sucesso, pois as “businas e cornetas de barro echoavam em desconcerto hilariante na sala”. A meio desse evento alguns rapazes invadiam o palco, representando ora diabos, ora polícias violentos!
Na segunda-feira à noite realizou-se o segundo espetáculo que decorreu sem qualquer incidente. Contudo, o terceiro espetáculo, realizado na terça-feira, foi o mais concorrido de todos, atingindo o seu auge, pois agora até os mais idosos se associaram à folia reinante: “As mamás riam-se de ver os nénés, os papás de ver rir estes e aquellas e os avós riam de os ver rir a todos tres”.
Nesse terceiro espetáculo marcou presença, pela primeira vez, o administrador do concelho, o Sr. Lourenço, homem que gostava de demonstrar autoridade e para isso apresentava uma cara de poucos amigos! E o problema surgiu quando o ator José Pedro, vestido de burro, pediu ao público que parasse de gritar, sob pena do administrador do concelho mandar terminar o espetáculo e encerrar o Teatro S. Geraldo! O público não gostou e criticou violentamente esta atitude, pensando que o ator estava a ridicularizar o Sr Lourenço. Mas não, esta foi mesmo a ordem dada pelo administrador do concelho que, perante uma enorme algazarra que ali se gerou, ordenou que fosse descido o pano do palco e a polícia evacuasse a sala!
O final abrupto do espetáculo, provocado pelo autoritarismo do Sr Lourenço, provocou uma confusão de tal ordem, tendo o Teatro S. Geraldo sido transformado numa autêntica batalha campal: “Quebraram-se cadeiras, gritou-se, apupou-se, resistiu-se aos guardas policiaes e tudo ficou, em estado de perigosa exaltação, durante uma hora, porque ninguém comprehendia o motivo de tão violenta determinação que importava um abuso d’auctoridade”.
Nos dias e anos seguintes, este episódio foi recordado em Braga e em toda a região. Todos falavam do Lourenço “da Ordem” que, na noite de Carnaval, em vez de ficar na sua casa de S. Martinho de Dume, a digerir a “orelheira de porco que lhe subiu à cabeça n’aquella para si memoravel noite de entrudo”, resolveu ir ao Teatro interromper um espetáculo de Carvanal!
A partir desse ano, os bracarenses referiam que este tipo de espetáculos civilizados eram realizados noutros locais civilizados, “onde os Lourenços não fazem ninho”!
Desde então, o epíteto Lourenço é por vezes usado em Braga, para descrever alguns Lourenços que ainda por aqui circulam!

1) “A Correspondência do Norte”, 2 de março de 1900

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