Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Cultivar o mérito e a excelência

O mito do roubo de trabalho

Voz às Escolas

2016-05-19 às 06h00

José Augusto

No passado dia 16 de maio, no magnífico salão medieval do edifício da Reitoria, no Largo do Paço, em Braga, a Universidade do Minho realizou mais uma edição da cerimónia de entrega das Bolsas de Excelência (vd. Correio do Minho de 17/05/2016). A iniciativa distingue, anualmente, o mérito do desempenho académico dos melhores alunos. Foram premiados os que obtiverem melhor média em cada ano curricular de cada curso, desde que igual ou superior a 16 valores. Foram também premiados os novos estudantes que ingressaram em cada licenciatura ou mestrado integrado com a melhor nota de candidatura ao Ensino Superior, que é resultado da média obtida no Ensino Secundário e das notas nos exames usados como provas de ingresso, também desde que igual ou superior a 16 valores. Nesta última categoria, foram atribuídas 34 Bolsas de Excelência a novos estudantes provenientes de 22 escolas com ensino secundário, sendo 30 deles de 19 escolas públicas estatais, incluindo duas alunas provenientes da Escola Secundária de Caldas das Taipas, e os 4 restantes de 3 colégios privados.
A cerimónia foi presidida pelo Reitor António Cunha e, além dos homenageados, marcaram presença muitas famílias, bem como representantes das escolas de origem dos premiados. Aliás, foi na qualidade de Diretor da Escola Secundária de Caldas das Taipas que participei na sessão e presenciei o reconhecimento da academia à Rita Sofia Monteiro e à Ana Rita Antunes que ingressaram com as notas de candidatura mais elevadas nos cursos de Gestão (189,2) e de Psicologia (171,0), respetivamente. Os rostos de felicidade dos presentes deixavam perceber o orgulho pelo reconhecimento de trajetos de trabalho intenso e pelo esforço de superação pessoal em busca do melhor que cada um encontra dentro de si. Num momento de grandes destaques individuais, ficaram também vincados, nomeadamente nos discursos do Reitor e do Vice-Reitor, os contributos coletivos para os desempenhos de excelência daqueles alunos: das famílias, da universidade e das escolas secundárias.
A cultura e as ações de valorização do mérito e da excelência continuam demasiado arredadas das práticas organizacionais das escolas e das comunidades locais. Mercê de preconceitos e de práticas de má-memória, gerou-se em muitas pessoas e organizações um complexo que incapacita a decisão e tolhe a ação. A valorização e o reconhecimento da excelência e do mérito não têm que estar focados na competição entre pares, podem focar-se em objetivos de superação individual e apoiar-se em práticas cooperativas e solidárias. A ausência de reconhecimento coletivo do mérito escolar e da excelência académica penaliza, especialmente, os estudantes provenientes de famílias mais desfavorecidas. Entre os estudantes que receberam as Bolsas de Excelência da Universidade do Minho, muitos são também bolseiros da ação social escolar. O mesmo ocorre na Escola Secundária de Caldas das Taipas. E, também por isso, considero que o reconhecimento do mérito, não deve ser apenas simbólico, mas também, na medida do possível, material. No caso da Universidade do Minho, as Bolsas de Excelência contemplam um valor pecuniário igual ao da propina, representando um investimento de cerca de 180 mil euros, financiado pelas suas receitas próprias. À sua escala e também à custa das receitas próprias, a Escola Secundária de Caldas das Taipas faz um esforço similar.
Noutros contextos sociais e culturais, é comum que outras entidades, designadamente empresas, se envolvam na instituição e financiamento de prémios desta natureza. É também frequente que este tipo de reconhecimento seja visto como elemento de valorização do currículo pessoal dos candidatos a empregos ou a funções sociais de relevo. Entre nós, a menor valorização do mérito escolar e da excelência académica são apenas mais uma consequência de um atraso de décadas na escolarização da população em geral e, até, de algumas elites sociais e económicas. Nesses contextos, cerimónias como a referida convocam grande atenção social e, consequentemente, da imprensa local e regional.
O quinhão de mérito que cabe a cada escola pelos desempenhos académicos dos seus alunos será muito variável. Em muitos casos (quase) tudo é feito pelas famílias e pelas organizações paralelas à escola (vulgo explicações). Porém, em particular nos casos dos estudantes provenientes de famílias mais desfavorecidas, isto é, menos escolarizadas e/ou de menores rendimentos, as escolas também podem fazer a diferença.
Cultivar o mérito e a excelência, em especial, entre os mais desfavorecidos, este é o campo onde as Escolas Públicas Estatais têm que se bater e marcar a diferença - sem abdicar da sua matriz não seletiva, lograr que todos, dependendo apenas das suas capacidades e do esforço do seu trabalho, possam alcançar e ver reconhecidos desempenhos académicos de excelência.

Deixa o teu comentário

Últimas Voz às Escolas

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.