Correio do Minho

Braga, sábado

Cumplicidades

Mercado de Trabalho em Portugal, uma visão crítica

Conta o Leitor

2010-07-04 às 06h00

Escritor

O calor de Agosto já lá vai. Miguel prepara-se para um ano difícil na sua vida, o último no seminário menor. O sonho de ser padre continua vivo. As férias fizeram-lhe bem. Os amigos voltaram a ajudar o jovem seminarista a carregar baterias para aquele que, até ver, seria o maior desafio da sua vida: a entrada para o seminário maior. 'Este ano já tenho quarto individual, há mais liberdade' - disse muitas vezes Miguel àqueles que, com frequência, o questionavam sobre a sua opção de vida.
A entrada para o 12.º ano correu bem. Os condiscípulos de sempre, alinhados no corredor de quartos pelo alfabeto. Partilhavam apontamentos, reflexões e até cantavam todos no pequeno coro que animava as missas do secundário no acolhedor oratório. O viver em comunidade fomentava o espírito de grupo. Ninguém se sentia indiferente a um curso tão homogéneo.
O ano foi passando e as metas foram sendo atingidas. As declinações do grego e latim estavam já na ponta da língua. Em conversa entre aqueles que formavam o coeso grupo de amigos, a notícia de que alguns iriam abandonar o barco caía que nem bomba. 'Pensa bem Pedro, não te precipites' - aconselhavam outros que, naquele dia, a vocação estava mais definida, mais segura. 'Tenho sau-dades da minha família, do mundo lá fora, da vida normal que os meus amigos da paróquia têm' - dizia Pedro, tentando justificar a opção que estava prestes a tomar.
Veio a festa do básico e do secundário. Nesse ano, no futebol, no andebol e na música o 12.º ano ganhou tudo. Parecia uma despedida quase perfeita da casa onde Miguel viveu seis belos anos. Em palco, ostentavam as medalhas de primeiros, deixando transparecer o sorriso de quem já tinha celebrado todas as vivências possíveis proporcionadas pelo seminário que acolhia os mais novos.
O reitor, homem dedicado à causa de dar o melhor àqueles que se formavam naquela casa, tinha um dia-a-dia agitado. Quando aparecia de surpresa ao fundo do corredor fazia-se silêncio. Não era medo. Apenas respeito. Poucos meses antes de terminar o ano lectivo, foram informados, antes da aula de Português, que o reitor queria falar com eles. Como delegado de turma ('bedel'), Miguel perguntou ao perfeito do dia o que se passava.
'Algo grave. O senhor reitor está muito desiludido convosco. Há mais de dois anos que vocês têm feito asneiras durante a noite. É verdade?' - perguntou ao jovem Miguel. Depois de uma troca de olhares cúmplices, veio o silêncio total que antevia castigo pesado para os intervenientes.
Miguel desconfiava que alguém do seu ano andava a trair o grupo. O 'bufo' estava mais ou menos identificado. Nesse dia, o almoço caiu mal. Até se cantaram os parabéns a dois seminaristas mais novos, foi dia de sumo e de mousse de chocolate, mas notava-se um ar pesado entre os mais velhos da casa. Antes de um par de aulas à tarde, Miguel combinou com os colegas ninguém falar. Trair o grupo seria fatal para o espírito de união. Só meia dúzia mostrava preocupação com o sucedido. Afinal, dos tais encontros da noite só faziam parte o Paulo, o Francisco e o Victor, o Jorge, o Simão e o Miguel. Apesar de ser algo que só eles sabiam, nas noites que precediam o dia de partida para férias do natal, Páscoa e final do ano, a convocatória estendia-se a todos os condiscípulos, ao qual ace- diam os menos temerosos. Dois seis habituais, juntava-se mais uma dezena de 'seminas'.
Às 15h30, hora que normalmente começava o tempo de estudo, a campainha tocou, mas Miguel não apareceu no quarto. Os outro cinco juntaram-se na casa-de-banho. A tensão era grande. Miguel entrou no gabinete do reitor. O suor escorria-lhe pela testa. Apesar de ter uma personalidade forte, de ser uma espécie de líder da turma, sentia que a confiança e responsabilidade que os superiores sempre depositaram nele podia ser posta em causa. A dois meses de partir para férias, e faltando fazer os exames nacionais, Miguel estava preocupado. Temia ser expulso antes mesmo da despedida, imaginava os seus pais serem chamados ao seminário, acreditava que, na melhor das hipóteses, tinha que ir uma semana de castigo para casa. No fundo, também tinha a esperança de que podia correr tudo bem, que o espírito de perdão iria prevalecer. Afinal, a noite sempre foi conselheira e ne-nhum dos 'seis' achava que tinha feito algo de tão grave para que toda a sua vida de seminário fosse posta em causa.
'Olá Miguel, os teus pais estão bem?' - começou por perguntar o reitor. A questão pareceu des-propositada, mas nem deu tempo para reflectir sobre a sua pertinência. 'Sabes que confio em ti, que acredito que serás um grande sacerdote, que és um exemplo para muitos dos seminaristas mais novos. Quero que sejas sincero comigo como eu vou ser contigo, certo? - interpelou. Miguel respondeu que sim, mesmo sabendo que não podia dizer tudo, que teria forçosamente de mentir a quem sempre respeitou e aprendeu a admirar.
Naquele preciso momento, o reitor cruzou os braços. O jovem reparou que o cónego até nem estava de cabeção. Olhou para a secretária e viu, pousada num suporte, a medalha que foi mandada fazer para assinalar a festa do secundário daquele ano. Em segundos, pela mente de Miguel passou a vontade de abrir o jogo com o reitor, de lhe contar toda a verdade, de revelar a essência daquelas noites bem passadas, da estratégia de saber a que horas o perfeito se deitava para os seis se levantarem, de falar com alegria das capacidades desconhecidas de cada um, da sua identidade, dos seus problemas. Valeria a pena trair o grupo? Contar toda a verdade simplificaria a resolução do problema?
'Miguel, quero saber o que se tem passado durante muitas noites, com o Victor e os seus quatro fiéis amigos. Sei que tu não fazes parte desta história, mas como delegado, conto contigo para me ajudar. Eles vão todos para casa. Vou ligar para os pais deles, vou escrever uma carta aos párocos e ainda vou pensar se os vou deixar enviar o pedido ao senhor bispo para renovar o pedido de matrícula para o próximo ano', disparou.
'Senhor reitor, não faça isso. Conto-lhe tudo, mas com uma condição: de não expulsar ninguém. Já viu que está em causa é a vocação de jovens, numa idade tão frágil? Faço parte desse grupo, aliás, sou o principal mentor do mesmo. Mas não fazemos nada de mal. Alguma vez teve alguma coisa a apontar a um de nós? É, ou não verdade, que todos nós cumprimos sempre com as tarefas que nos eram propostas, na música, no teatro, no desporto, nas equipas de jardinagem, na animação litúrgica, na oração comunitária? - , questionou.
O cónego fitou os olhos em Miguel e mandou-o sentar. Parecia excessivamente sereno. Pela pri-meira vez, Miguel teve que falar do segredo. Durante mais de 20 minutos, o jovem relatou, pormenorizadamente, todos os factos. Contou tudo.
No final, o reitor pediu-lhe para chamar os outros cinco. Miguel subiu as escadas sem saber bem o que iria acontecer, mas sentia que algo de bom podia estar para vir. Correu pelo corredor a chamar pelos outros. Sentia-se leve, livre da responsabilidade de ter que mentir para salvar o grupo.
Em fila alinhada, ninguém queria ir à frente. Miguel tomou as rédeas e, ao de leve, bateu à porta. De dentro veio a ordem para entrarem. O cónego estava ao telefone. Mesmo com todos ali, não se escusou em falar abertamente com um dos padres responsável pelo acompanhamento espiritual dos alunos do básico. Perceberam que o reitor queria fazer um encontro de férias com todos os seminaristas do seminário menor. Poucos minutos depois, disse ao sacerdote que depois falariam sobre esta ideia. 'Tenho aqui assuntos muito importantes para tratar, não posso esperar mais. Depois ligo-te!' - combinou.
Depois desta resposta, o medo tomou conta dois seis. Se houvesse um buraco no chão, nenhum deles hesitaria em esconder lá o rosto envergonhado. Diante do reitor, teriam a sua sentença.
“Rapazes, ouviram o que eu disse ao padre Sarmento? Quero que todos os jovens que aqui vivem se sintam em casa. Nem sempre fazemos as coisas bem. Às vezes cometemos erros. No seio de um grupo de 25 alunos, há sempre alguém que não se enquadra, que destoa dos ideais da vida comunitária. Quero que saibam uma coisa: o que me contaram sobre os vossos encontros nocturnos não corresponde, em nada, àquilo que o Miguel me acabou de dizer - desabafou. 'Senhor reitor, o que lhe contei é a verdade. Não lhe podia mentir' - interrompeu Miguel. O reitor sorriu.
'Tenho um desafio para vós e não me podeis deixar ficar mal. Quero fazer um acampamento de férias e vocês serão responsáveis pela animação, tanto na oração, como na preparação das várias actividades. Aceitam?' - questionou.
Os seis responderam, quase em uníssono, que acolhiam o desafio com grande entusiasmo. Depois o reitor explicou-lhes que lhe a vida em regime de internato sempre foi fértil em casos, ainda que momentâneos, de alunos que quebravam as regras. 'Sabem, já tive a vossa idade. Sei bem que os vossos encontros nocturnos, na sala dos lavatórios, serviram sempre para vocês lerem poesia, literatura convencional, para fazerem umas tainas e, quem sabe, para fumar uns cigarritos. Eu sei de tudo. Mas o que me contaram é que vocês fugiram, várias vezes, do seminário, que faziam barulho à noite. Depois de andar várias semanas a investigar, cheguei à conclusão que vocês são como eu!'.
'Como você, o que quer dizer com isso', questionou Miguel. 'Meus caros, conhecem a filosofia, a lógica e a matemática de Bertrand Russell? Como ele diz, 'com um pouco de agilidade mental e algumas leituras em segunda mão, qualquer homem encontra as provas daquilo em que deseja acreditar...' Por isso, acreditem sempre. Leiam, estudem, convivam. Isso é que vai fazer de vós grandes homens. O oratório, a capela, as laudes, vésperas e completas, os retiros e os momentos de estudo são pilares fundamentais, mas se faltar tudo o resto, sentirão falta do adubo para dar frutos. E eu quero formar homens que dão frutos'.

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