Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

Da diversidade dos desejos

Escola Frei Caetano Brandão

Conta o Leitor

2019-07-01 às 06h00

Leitor Leitor

Ana Maria Monteiro

Ad Leila, grávida de oito meses, continuava com os mesmos desejos quase incontroláveis por comidas específicas. Naquele dia sentia-se desesperada por um bom bife de alcatra com aquele molho único que só é servido na Portugália. Esperou pacientemente pela chegada do marido a quem rodeou o pescoço num abraço convidativo sussurrando-lhe o quanto lhe apetecia jantar fora nessa noite e o que queria comer. José não tinha a menor vontade de sair de casa, mas como recusar aquele pedido tão simples? Acedeu.


António, um dos sem-abrigo da zona, olhou os trocos que conseguira reunir ao longo do dia. Há quantos anos não comia uma refeição decente? Limitava-se a aceitar agradecido a comida distribuída diariamente pelo “exército de salvação” no Jardim Constantino. Hoje não seria assim: era o sexagésimo aniversário e finalmente concretizaria o seu maior desejo: Jantar na Portugália.


Já há semanas que Manuel andava com Alice debaixo de olho. A nova estagiária era “boa como o milho” e dava-lhe a sensação nítida de que poderia ser bem-sucedido se tentasse uma abordagem adequada, não demonstrando a avidez do desejo que o consumia. Trabalharam até um pouco mais tarde. O escritório situava-se na Almirante Reis. À saída tentou a sua sorte: — A esta hora e com este tempo, talvez pudéssemos comer qualquer coisa na Portugália. Já é tarde para ainda ir para casa fazer o jantar. Amélia anuiu. Sabia do interesse dele e também se sentia atraída, quem sabe seria o início de algo mais…


Fernando, depois de conduzir 10 horas a fio, sentia-se cansado. Sabia que era perigoso continuar. Só lhe apetecia dormir. Ainda tinha mais 400 Km pela frente até chegar a Braga, mas o que desejava mesmo era comer qualquer coisa. “Talvez comendo desperte um bocado e me passe o sono.” Estacionou na Pascoal de Melo e decidiu jantar na Portugália.

O peso da solidão era excessivo para Adelaide. Sem namorado há mais de um ano, não aguentava outro serão de 6º feira olhando fixamente o telefone na esperança vã de que alguém se lembrasse da sua existência e a convidasse para alguma coisa. Sairia sozinha. Vivia na zona da Alameda. Decidiu andar um bocado e ir até à Portugália, sempre frequentada por pessoas de todo o tipo, incluindo homens jovens e passíveis de transformar em gostosas e desejáveis sobremesas.


O Refilão – já mal se recordava do nome que lhe haviam dado – sentia-se prestes a morrer de fome e frio. Abandonado desde o verão, o que o felino mais desejava era uma refeição digna desse nome. Talvez se conseguisse infiltrar-se na cozinha, alguma alma caridosa se apiedasse dele e lhe desse qualquer coisa de jeito para comer. Dirigiu-se à Portugália.


Arnaldo não podia sentir-se mais miserável. Tinha a certeza que era desta. Sabia, sentia, sonhara que finalmente lhe sairia o euromilhões. Olhando o bilhete em que não acertara um único número, sentia a frustração por o tão desejado novo automóvel uma vez mais lhe fugir por entre os dedos. Suspirou desanimado. Teria que contentar-se em jantar na Portugália.


Depois de uma tarde de compras com as amigas satisfazendo os seus mais básicos desejos consumistas, Joana percebeu que esgotara o saldo do cartão de crédito e que a conta bancária não estava em melhor estado. Comer em casa? Terminar de forma tão deprimente um dia de prazer e glória? Nem pensar! À falta de melhor, ainda conseguiria pagar uma refeição na Portugália.
...

Álvaro mudou de roupa, revigorado. Mais uma noite de trabalho terminara. A última. Está neste emprego há mais de 30 anos e amanhã é o primeiro dia da sua merecida reforma. O seu desejo? “Adeus Portugália. Um dia destes venho cá comer um bife.”
E saiu com um sorriso no rosto.

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