Correio do Minho

Braga, sábado

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Da falta que as tentações nos fazem

Como se faz uma amizade permanecer?

Escreve quem sabe

2018-09-26 às 06h00

José Hermínio Machado José Hermínio Machado

Veio-me o título à corrente por achar que há um excesso de casos pendentes na cidade a precisar de futuro. Precisamente a mesma sensação que os cancioneiros provocam por se acharem carentes das sonoridade que os retomem. Já o mesmo terão sentido e disseram outros perante ruínas ainda evitáveis e provavelmente será este o modo de ser de tudo quanto vamos deixando sem função útil.
O que fazer então da fábrica Confiança e de seus cheiros, o que fazer das Sete Fontes e de suas sedes, o que fazer das Goladas e de suas sombras, o que fazer da Francisco Sanches e de seus degraus, só para dar exemplos em freguesia de meus passos quotidianos. Esta ânsia de destino querem-na as bibliotecas, querem-na as arcas de roupas desusadas, querem-na as alfaias agrícolas de tracção manual e animal, querem-na as fotografias de acumulação desinteressada, quere-a tudo quanto vamos deixando a deslado de nosso desenvolvimento ou progresso ou contemporaneidade. Olhamos para trás e que vemos?

Aquela medievalidade silenciosamente construtora de formas pesadas e austeras deu seguimento a um renascimento de fulgurações neoclássicas, este coroou-se com um barroco de espectacularidade naturalista, para a seguir o romantismo se dar ares de vida contemplando as decomposições medievais e clássicas, e o realismo se fazer esquecido de quanto era degradação e se concentrar em fazer de seu presente continuadamente renovado a sua fonte vital. Se somarmos a estes movimentos assim sumariamente apontados o crescimento exponencial das ciências e das tecnologias que os acompanharam viremos desembocar a este nosso mundo presente, para uns tão rico e diverso, tão prendado em relação a passados de vida e de urbanidades, tão auspicioso de futuros, para outros tão descuidado em relação a complexidades problemáticas de toda a espécie. A cidade de Braga, como outras, certamente, tem em si própria estas representações e bem pode dar-se ao luxo de as assumir em sucessivas festas e devaneios de criação, tornando-se romana, medieval, barroca, rural, enfim, assumindo as pantomimas e arremedos de tudo quanto fez.

Entretanto persiste em seus modos de ter e de ser presente, cada vez mais envolvida e condicionada por seus consumos e gastos de mantença.
É evidente que a largueza de horizontes e de verbas pode acalentar juízos de conveniência e, assim seja, por muitos e bons anos se farão festas retomando mais miudezas do tempo. Oxalá então ganhem asas de futuro esses casos pendentes de património, ora para serem museus do que foram, ora para serem parques, ora para serem novas residências ou novas instalações de vidas próprias.
Entretanto fazem-nos a companhia de sombras e a nostalgia de saudades. Quando se anda por propriedades agrícolas de rendimento sustentado vamo-nos dando conta das obras continuadas que ocorrem em casario, em arrumos, em campos, em águas, em renovos e manutenções.

O mesmo dizemos quando olhamos para esses lugares de culto com esmolar garantido que vão prosseguindo obras de embelezamento e garantia. Mas entretanto aguardamos que cheguem as ideias e os cabedais sonantes a outros lugares de menor gasto de engenho e de curiosidade futura. Também não seremos tentados a gastar mal!

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