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Da praia à concessão

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Da praia à concessão

Ideias

2019-09-02 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

Na praia de Santa Eulália, os tons azulados do céu mesclam-se de invulgares tonalidades. Do areal avistam-se desgastadas formações rochosas onde repousam gaivotas famintas. Vislumbram-se também tons quentes e avermelhados da falésia, sob a qual alguns "corajosos" se aventuram a tirar perigosas selfies.
Neste lugar maravilhoso, concessionam-se espaços. Alguém, aproveitando-se da encantadora praia, aluga não só palhotas e espreguiçadeiras plastificadas, mas, também, serviços e produtos destinados à prática de desportos náuticos. O meu vizinho banhista lá vai comendo mais uma bolinha, enchendo o bucho ano após ano, tentando desta vez convencer-me a não me deitar no sinuoso chão e a aproveitar o pacote oferecido pela concessão. Segundo ele, o preço de uma sombrinha concessionada inclui diversas mordomias, entre as quais uma toalha grátis sobre uma esplendorosa cama de plástico, uma bebida de boas vindas e uma maravilhosa passadeira de areia dourada até ao mar, livre de obstáculos que impeçam o avistamento do azul sublime do mar algarvio.

Por momentos, pensei neste pacote promocional, observando de esguelha uma enxurrada de banhistas em hora de sol a pino. Todos eles tentavam acomodar-se de qualquer jeito por entre os raros espaços ainda disponíveis numa praia que aparentava minguar a cada segundo que passava. Reparei ainda que, no meio de tanto sargaço e calor abrasador, um jovem casal já bracejava pela falta de espaço no lado grátis. Decidiu, então, quebrar a regra de proibição de guarda-sol, claramente descrita na tabuleta do concessionário, e fixar o seu na área protegida.

Relembrei o modelo de concessão tradicional, as suas vantagens e desvantagens, e também as diversas variantes dos mesmos aplicadas em diversos outros contextos, nomeadamente nos retalhistas. Ao contrário do modelo digital “e-concessão”, o modelo de concessão tradicional não é um modelo de negócio recente. É, aliás, um modelo já bastante explorado por diversas marcas com o objetivo principal, não só de diminuir custos e riscos, mas, também, de aumentar lucros, em mercados globalizados e altamente competitivos. A ideia principal de um modelo deste tipo visa a obtenção de rentabilidade através do aluguer de um espaço estrategicamente delimitado dentro da infraestrutura de quem concessiona.

Nem sempre a adoção do modelo tradicional se traduz em sucesso para quem concessiona, nem tão pouco para o novo inquilino do espaço. Tal situação poderá espoletar diversas variações do modelo tradicional, minorando geralmente o grau de risco de quem concessiona o espaço, tal como a aplicação de custos extra para quem não atinja determinados requisitos. O posicionamento estratégico de produtos e serviços de uma determinada marca, dentro do espaço físico de uma outra marca, não só permite aproveitar o tráfego já existente naquele espaço, gerado pela marca que concessiona, mas também o tráfego de outras grandes marcas posicionadas dentro da mesma infraestrutura.

Veja-se por exemplo o caso da marca "El Corte Inglés", cujo modelo de negócio, baseado em lojas departamentais (do inglês department stores), inclui imensas marcas em regime de concessão. De acordo com o sítio GrandeConsumo relativo ao período de 2018, "El Corte lnglés" alterou o modelo tradicional para uma variação do mesmo, cobrando não só uma renda pelo espaço, mas também uma taxa mínima às marcas que não atinjam determinados objetivos nas suas vendas. De acordo com o mesmo sítio, que menciona até a "Moody’s", estimava-se que esta pequena mudança tivesse um contributo positivo e substancial nas margens de lucro da marca nos dezoito meses imediatamente subsequentes à sua implementação.

O modelo digital de concessão (o denominado “e-concessão”) não difere assim tanto do modelo físico dado que os princípios básicos se centram na mesma ideia de espaço. Se, por um lado, o objetivo do primeiro incide na rendibilidade de um espaço físico, espera-se, no segundo, a rendibilidade do espaço virtual. Vejam-se, por exemplo, as gigantes empresas Amazon, Zalando e Brandless, ou, ainda, a “nossa” Farfetch, cuja plataforma digital permite consolidar virtualmente produtos de grandes marcas de vestuário de renome mundial.
De regresso à toalha e àquela praia maravilhosa, reconsidero a sugestão do vizinho, mantendo-me, no entanto, fiel à areia dourada grátis. Considero que os modelos de concessão e "e-concessão" estão bem presentes na nossa sociedade, mas nem sempre são bem-vindos ou se encaixam em determinados contextos. Que o diga aquele jovem casal chamado à atenção por violar uma regra de concessão, da qual até discordo.

* com JMS

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