Correio do Minho

Braga, sábado

Da rotina e do desconforto

Menina

Escreve quem sabe

2019-06-10 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva

Adoro rotinas que não são rotina. Aprender coisas úteis e inúteis. Viajar no espaço e tempo para diferentes lugares fascinantes e longínquos, onde o sol na água salgada nos bronzeia a pele. Não tolero que a rotina se torne rotineira, porque ela pode tornar-se bastante matreira, diz quem sabe da poda. Aceito até que ela me conforte na sua zona, tal como porventura a muita gente, procrastinando por vezes no canto do sofá doméstico. Hoje, penso na palavra «transformação» e reflito naquilo que ela verdadeiramente representa para mim como pessoa e profissional. Qualquer transformação implica mudança, espoleta sensações de instabilidade ou de insegurança em todos nós. Mas a verdade é que, se por um lado as rotinas são positivas, não o são quando a palavra «mudança» aparece no dicionário, tornando-se por vezes num epítome do desconforto geral.

São as transformações que nos fazem melhorar e avançar. Aliás, transformar, inovar e adaptar são três requisitos vitais para a evolução futura das organizações. Em grandes projetos de transformação de diversos retalhistas em todo o mundo aprendi que, para além de se implementarem novas arquiteturas, sistemas e aplicações tecnológicas distintas, de variável complexidade, o principal foco de todas e quaisquer transições, dentro de uma jornada de transformação, deverá ser a antecipação do impacto potencial na mudança de comportamento das pessoas envolvidas e nas rotinas implementadas pela própria organização. Constatei que esse impacto, quando não é antecipado e bem gerido, resulta consecutivamente em adiamentos e ajustes do próprio programa, aumen- tando os custos do mesmo e promovendo a frustração geral.

Se, por um lado, os diferentes contextos culturais e o contexto socioeconómico são fatores preponderantes para o sucesso ou insucesso de quaisquer transformações, acredito hoje, e cada vez mais, que o principal foco de qualquer processo transformacional deverão ser as pessoas. Atrevo-me a afirmar, aliás, que o pleno entendimento do indivíduo no seu todo, as suas frustrações, os seus receios, são elementos fulcrais para a organização se abastecer com instrumentos e profissionais potenciadores de uma renovação com sucesso.

Fala-se bastante na revolução digital, especificamente nas suas implicações no retalho, discute-se o natural impacto das tecnologias e inovações nas nossas vidas, nas disrupções latentes em diversas áreas e negócios, nas transformações por via da implementação de soluções supersónicas, mas esquecemo-nos, por vezes, que as pessoas são e serão sempre o principal fruto ativo de uma organização. Sem elas, será impossível recolher o verdadeiro sumo idealizado.

Há uns anos, fiz uma simples sugestão a um dos meus colegas. Recordo-me que ele sorriu e abanou os ombros. Hoje, acredito que voltaria a fazê-la com a mesma convicção, seguindo exatamente a mesma linha de pensamento.
Sugeri-lhe que contratasse e disponibilizasse um psicólogo para cada um dos programas de transformação em que participássemos. Os motivos que me levaram a fazê-lo prendem-se com o facto de ter vivenciado e sentido na pele períodos árduos e longos de grandes projetos. Constatei, muitas vezes, desconforto das equipas no terreno, não só do lado dos nossos clientes, mas, também, do nosso. Observei sistematicamente comportamentos mais conservadores, por vezes de frustração extrema, descrença na mudança, desânimo e cansaço, estados comportamentais que deveriam ser suportados por um profissional das áreas da psicologia, capaz de fragmentar todos esses processos complexos mentais, amplos, e entendê-los na sua plenitude. E, lá no fundo, que esses profissionais nos ajudassem durante períodos que pareciam não terminar.

As rotinas não são negativas. Permitem, aliás, enraizar processos e fazem parte do ADN da nossa vida e de quaisquer organizações. Mas as transformações são essenciais e temos de aceitar que a mudança é algo inevitável. Talvez não se consiga apagar completamente a dúvida e a incerteza resultantes de uma renovação, mas certamente podemos focar-nos mais nas pessoas, no bom entendimento dos seus comportamentos e gerir bem a mudança.

*com JMS

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