Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Das oportunidades

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias Políticas

2012-12-04 às 06h00

Pedro Sousa

Em 1899, Eduard Bernstein, no seu livro intitulado ‘Os Pressupostos do Socialismo e as Tarefas da Social-Democracia’, escrevia o seguinte: “Nenhuma sociedade tinha ido tão longe como a nossa no caminho da libertação. Bastaria abolir a contradição entre interesses privados e colectivos para que esta liberdade, ainda completamente teórica, se tornasse efetiva. Mas já o interesse privado recua perante o interesse colectivo. (…) Desta maneira, homens e povos inteiros vão escapando a pouco e pouco a um destino hostil.”

À data, estas palavras faziam todo o sentido. Ao longo do século XIX verificaram-se profundas mudanças no panorama político, económico e social, que se foram perpetuando e aperfeiçoando durante o século XX.
Para além disso, Bernstein escreveu a obra citada numa altura em que, na vertente social, se verificou o fim da escravatura e a luta dos trabalhadores por melhores condições de vida e de trabalho, conquistando, numa primeira fase, a jornada de oito horas de trabalho e as duas folgas semanais e, mais tarde, o direito às férias pagas e o salário mínimo, entre muitas outras medidas que ao longo do século XX foram tomadas no sentido de proteger o lado mais fraco de uma relação laboral, os trabalhadores, e a classe média em geral.

No entanto, se Bernstein escrevesse a obra citada nos dias de hoje, com certeza que procederia a algumas alterações no excerto citado, na medida em que, hoje em dia, se verifica um recuo do interesse colectivo em relação ao interesse privado e no sentido de que os homens caminham a pouco e pouco para um destino hostil.
Como o próprio Primeiro-Ministro já referiu, a crise deve ser vista como uma oportunidade. Com isto, Passos Coelho quer dizer que é uma oportunidade de os desempregados porem as suas capacidades à prova no sentido de se tornarem empreendedores, criarem a sua empresa e o seu próprio emprego.

Também penso que esta crise é e tem sido uma oportunidade, mas não no mesmo sentido do pensamento de Passos Coelho, porque não espero que a maioria dos mais de 800 mil desempregados ganhem capacidades espontâneas para se tornarem bons empreendedores e criarem o seu próprio posto de trabalho, até porque o atual momento em que o país se encontra não é propício para dar início a um negócio, ainda para mais com um governo que teima em não apoiar os pequenos e médios empresários.

Portanto, na minha opinião, esta crise tem sido uma oportunidade para os empresários poderem praticar salários mais baixos e pisar vários direitos laborais, tirando partido do sufoco em que muitas pessoas se encontram. Tem sido, também, uma oportunidade para o Governo culpar o Estado Social e o código laboral pela atual situação. Nesse sentido, o Governo tem utilizado esse argumento como forma de dar legitimidade ao desmantelamento do Estado Social que está a levar a cabo e para a redução e extinção de direitos laborais e sociais, que foram conquistados através de uma luta que durou décadas.

Por outras palavras, o Governo está a aproveitar a oportunidade que esta crise lhe está a conceder para implementar um programa ultraliberal desnecessário, que destrói as pequenas e médias empresas em detrimento de um maior poder dos grandes grupos económicos, que, assim, vão monopolizando a economia a seu favor e, com isso, aumentar ainda mais a sua influência em relação ao poder político.
Este Governo e os vários dirigentes europeus dizem estar empenhados no desenvolvimento da Europa, mas a verdade é que o caminho tomado tem sido no sentido de regredir até a um nível social idêntico ao das primeiras décadas do século XIX.

Para finalizar, aproveitar para deixar uma palavra de apreço a António Guterres. É sempre bom ver um político e, em particular, um ex-governante a ter a coragem de assumir que errou e que, portanto, se sente corresponsável pela atual situação. Guterres mais uma vez deu uma grande prova de carácter e mostrou a grande personalidade que tem, dando provas, mais uma vez, de que é sem dúvida o melhor Primeiro-Ministro que Portugal alguma vez teve e o político mais bem preparado para ocupar o cargo de Presidente da República em 2016.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias Políticas

11 Dezembro 2018

Cultura plena

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.