Correio do Minho

Braga, terça-feira

(De) Bosch

Repensar a Lógica do Livro de Instruções

Ideias Políticas

2014-12-09 às 06h00

Carlos Almeida

Num ano de mandato apenas, Ricardo Rio não fez por menos e, entre visitas, conferências ou entrevistas, não perdeu uma única oportunidade para assinalar a “excelência” das multinacionais Bosch, Car Multimedia Portugal, e Delphi Automotive Systems Portugal - empresas situadas no denominado complexo industrial Grundig, em Braga.

Motivado pela ideia única do seu programa político - da primazia dos grandes negócios e dos nobilíssimos empreendedores sobre qualquer outra área de governação -, Ricardo Rio não poupa elogios às administrações das ditas empresas. Em Fevereiro, numa visita às instalações da Bosch, classificou-a como “parceiro incontornável do Município”, assegurando que a autarquia “iria ainda tomar medidas para garantir o bem-estar e a qualidade de vida dos colaboradores da empresa.” Em Setembro, em nova visita às instalações da empresa, Ricardo Rio, aludindo a um projecto de investigação e desenvolvimento tecnológico, optou por destacar “a aposta da empresa na mão-de-obra qualificada da região”. Em Novembro, numa entrevista ao Jornal de Negócios, Rio fez questão de se regozijar pela capacidade produtiva, desta vez, das duas empresas - Bosch e Delphi - assegurando que, juntas, “produzem metade dos auto-rádios vendidos na Europa”. Na passada semana, no âmbito da sua participação numa tertúlia promovida pela multinacional alemã, Ricardo Rio sublinhou a “enorme responsabilidade social da empresa” que, segundo disse, mostra-se “sempre presente e aberta a toda a comunidade”.
A coroar este exemplar ano de beija-mão aos administradores das ditas multinacionais, eis que pelas mãos do Presidente Ricardo Rio se adorna a lapela do da Delphi com a medalha de ouro da cidade.

O que é insólito, no meio de tudo isto, é que, em tantos contactos, em tantas referências feitas, nunca tenha havido por parte do Presidente da Câmara uma única medida de preocupação, apreço ou estima dirigida aos verdadeiros responsáveis pela “excelência” e pela produção “de metade dos auto-rádios vendidos na Europa” - os trabalhadores da Bosch e da Delphi.
Que medidas tomou, então, Ricardo Rio para “garantir o bem-estar e a qualidade de vida” dos trabalhadores destas empresas? Que se conheça, nenhuma.
O que dirá agora Ricardo Rio, que elogiava a aposta da Bosch em mão-de-obra qualificada, depois da condenação a que esta foi sujeita pelo Tribunal da Relação do Porto, acusando-a de recurso abusivo a contratos precários?

Fará ideia Ricardo Rio de quantos trabalhadores destas empresas estão com doenças profissionais, nomeadamente musculares e do foro psicológico, em virtude dos elevadíssimos ritmos de trabalho?

Conhecerá Ricardo Rio o número de trabalhadores que, por ano, desfalecem durante a jornada de trabalho por não aguentarem a pressão a que estão sujeitos em plena linha de produção?
Postos os factos todos no plano do conhecimento público, talvez seja agora mais fácil fazer um juízo quer sobre as relações de trabalho que vigoram nas referidas multinacionais de “excelência”, quer em relação à incompreensível obsessão de Ricardo Rio pelas mesmas.

Certo de que em breve lá voltará a uma destas empresas para mais uma sessão de propaganda, espero que não perca a oportunidade, desta feita, de falar com alguns dos trabalhadores e de perguntar-lhes como vai a sua saúde, quais são os seus vínculos contratuais e se estão satisfeitos com os elogios do Presidente da Câmara a uma administração que não respeita os mais elementares direitos laborais e humanos.

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