Correio do Minho

Braga, terça-feira

De Braga para o outro mundo

O que nos distingue

Ideias Políticas

2014-10-14 às 06h00

Carlos Almeida

Lembro-me de ser ainda miúdo e vibrar euforicamente cada vez que falavam de Braga na televisão. Era um orgulho! Os senhores da televisão estavam a falar da minha cidade! Achava aquilo de uma importância tremenda, quase como se isso confirmasse o estatuto de Braga como uma grande cidade. Pouco importava se o assunto era trágico ou irrelevante. Ali estava, na televisão, Braga em todo o seu esplendor.

Veio esta minha lembrança a propósito da emissão, na passada semana, do programa Prós e Contras, da RTP. Calculo que não terá sido indiferente para um bracarense ver e ouvir a sua cidade como tema num programa de informação da televisão pública portuguesa. Imagino que tenham todos ficado entusiasmados com a importância que atribuíram a Braga. O mundo com os olhos postos em Braga - nada mais belo!
Porém, penso ser razoável que, no mínimo, nos questionemos sobre o conteúdo e os intervenientes no debate.

O mote do programa era: “De Braga para o mundo”. Podíamos acrescentar-lhe um i na última palavra. Imundo é o jornalismo que nos oferecem, onde a informação é ditada por quem controla o poder político e económico, onde tudo funciona a uma só voz. Exemplo maior disso mesmo é este programa a que chamam Prós e Contras.

Infelizmente, o dito programa não precisava de emitir a partir daqui para sabermos disto. A prática é corrente e é observável à vista desarmada. E Braga não foi excepção. O que aqui se viu foi uma única perspectiva de Braga, a de quem ocupa lugares de poder e decisão. Uma Braga que só existe na cabeça de alguns, onde tudo é perfeito: os novos negócios singram, o emprego cresce a olhos vistos, a inovação e o conhecimento estão ao alcance de todos. Quem diz o contrário é tolo ou não gosta de Braga, acusam os novos profetas.

Dizem eles que, se alguém fosse ao programa falar do que está mal em Braga, não convencíamos ninguém a trazer investimento para cá. Ou ainda que há determinados assuntos de que não interessa falar porque, caso o fizéssemos, seria mais difícil vender a marca Braga. Vender a marca Braga? Por favor! Quero dizer-vos que a única coisa que esteve à venda naquele programa foi o pensamento único e dominante. O que nos quer convencer de que não há outras possibilidades: ou isto ou o caos. O que nos quer impor um modelo de desenvolvimento, que, apesar de colorido como os preceitos do “capitalismo moderno”, não consegue disfarçar a vontade de exploração e concentração de riqueza.

Um programa de informação que se preze, principalmente quando é emitido na televisão pública, tem a obrigação de garantir a pluralidade de vozes, posições contrárias, visões diferentes. Não pode fingir que não há problemas ou dificuldades e outras respostas ou soluções.
Por muito que a alguns custe acreditar, há muita gente que não vive de “startups” ou “benchmarkings”. Há muita gente que só quer a sua dignidade de volta - emprego, salário justo e atempado. E disso não houve quem falasse no “maior debate da televisão portuguesa”.

E eu, na minha modesta opinião, gostava que tivessem falado, por exemplo, dos salários em atraso na “Construções Europa Ar-Lindo”. Gostava que tivessem explicado que futuro têm reservado para os trabalhadores despedidos da Moviflor. Gostava também que dissessem quem vai pôr termo às pressões e intimidações que os trabalhadores sofrem diariamente no lar da Irmandade de Santa Cruz. Gostava ainda que encontrassem uma explicação para dar aos filhos dos trabalhadores das Padarias São José para que eles pudessem perceber porque não têm pão na mesa.
Enfim, gostava que tivessem falado de tantas outras coisas… E, posso assegurar-vos, não gosto menos de Braga por isso.

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