Correio do Minho

Braga, quinta-feira

De quem já nada tem a perder

‘O que a Europa faz por si’

Ideias Políticas

2012-10-16 às 06h00

Carlos Almeida

Caro Pedro Passos Coelho, gostaria de falar-lhe de uma realidade que se alastra no país. Não é que ache que o senhor não a conhece, digamos antes que lhe escrevo para que deixe de assobiar para o lado.
Quero falar-lhe de muitos portugueses que hoje vivem com o coração nas mãos. Daqueles a quem o senhor acusou de viverem acima das suas possibilidades. Os mesmos a quem prometeu que, caso ganhasse as eleições, não precisaria de cortar salários nem de recorrer a mais despedimentos para equilibrar as contas públicas.

Aqueles que habitualmente o senhor classifica de classe média, quando, na verdade, muitos vivem já abaixo do limiar da pobreza.
Quero lembrar-lhe, caro senhor, que por trás dos números, dos resultados, das previsões, das estimativas, estão pessoas. Pessoas com compromissos, com encargos, com sonhos.
Caro Passos Coelho, já tentou pôr-se na pele destas pessoas?

Alguma vez foi às compras, entrou num supermercado e teve que ir somando minuciosamente o custo dos produtos que ia tirando das prateleiras? Alguma vez chegou à caixa do tal supermercado e teve de escolher entre o leite e os ovos, por não ter dinheiro para ambos?
Algum dia viu os seus filhos saírem de casa sem pequeno-almoço, porque nada tinha para lhes dar?
Alguma vez teve vergonha de se encontrar com os amigos porque nem dinheiro para tomar um café tinha?

Já lhe aconteceu ter que desistir de alguma coisa por falta de dinheiro? Imagina sequer o que representa para um pai ou uma mãe ter que tirar o seu filho das aulas de natação porque não pode pagar a mensalidade?
Alguma vez teve de caminhar quilómetros a pé, com algum dos seus filhos ao colo, para o levar à creche, porque o carro - aquele que foi pago em dez anos e à custa de muito suor - já não tem combustível há semanas?
Aconteceu-lhe, por acaso, deixar de almoçar porque não tinha dinheiro?

Já teve o senhor vergonha de sair à rua porque não se queria encontrar com o senhorio por ainda lhe dever a renda?
Já se sentiu embaraçado ao perceber que apesar de todas as dificuldades por que passa, há muita gente que vive ainda pior? Sem casa, sem emprego, sem comida.
Calculo que não estarei enganado se disser que nada disto lhe é familiar.

Por isso me indignei ao ouvi-lo arrogar-se recentemente de ser de uma “raça de homem que paga o que deve”, “que honra os compromissos”. Não surpreende que assim seja. Com as calças do meu pai sou eu um homem. Com o nosso dinheiro é fácil assumir compromissos. Com os nossos sacrifícios nada custa pagar as vossas dívidas.

Sabe, estas pessoas também gostariam de poder pagar o que devem e honrar os seus compromissos, não fossem as decisões políticas do seu Governo.
E são estas pessoas que já nada têm a perder que, mais cedo que tarde, vão também exigir o direito a uma vida digna. Porque é tão-só de dignidade que se trata.

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