Correio do Minho

Braga, quinta-feira

... de Sobredotação (III)

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Escreve quem sabe

2011-12-13 às 06h00

Cristina Palhares

A verdadeira aprendizagem dá-se quando, no confronto cognitivo suscitado numa aula, um(a) aluno(a) é capaz de perceber o que até ali não era percetível, de aprender o que até ali era desconhecido, de integrar o que até ali estava solto, ou seja, quando revela a verdadeira capacidade de se espantar. Espantar, sim.

O espanto aristoteliano que tão bem Olivier Reboul descreveu: o espanto de quem passa de simples repositório do ensino para sábio, para entendedor. Saber é compreender. E compreender acontece quando existe espanto. O espanto de quem compreende. Isto sim, leva o ensino, da simples arte de ensinar, para a nobre arte de aprender. O professor ensina, mas é o aluno que aprende. E ele só aprende na medida em que se espanta... O espanto ouve-se, normalmente. É um sopro interior, de dentro para fora, normalmente acompanhado de um som: “Aaaah....”

Como sempre, e o povo vai dando razão, “para bom entendedor, meia palavra basta”. E o povo é sábio, porque compreendeu. O que faz então um aluno na sala de aula, bom entendedor por certo, e para quem meia palavra bastaria, se continuamente o professor utiliza duas palavras ou mais para que aquele que não é tão bom entendedor possa também espantar-se? Não faz muito, não.

Não aprende muito não, porque não se espanta muito... Tudo é ensinado de tal forma que poucas vezes leva à compreensão de quem aprendeu. Vão sendo depósitos cheios de conhecimentos, e vazios de sabedoria. Porque a sabedoria é interna, é provocada sempre que um espanto aristoteliano é emitido, levando o aprendiz a sujeito da sua própria aprendizagem. Não é o professor que ensina mas o aluno que aprende.

Assim são os nossos alunos que apresentam caraterísticas de sobredotação: são sujeitos da sua própria aprendizagem. Adquirem rapidamente a informação e retêm-na, tendo uma atitude de investigação ativa, uma curiosidade intelectual e uma motivação intrínseca enorme; apresentam habilidades invulgares para conceptualizar, abstrair e sintetizar; apreciam desafios que impliquem atividade intelectual, buscando a sua sistematização; têm um amplo vocabulário e capacidade verbal, demonstrando também um alto nível de informação sobre temas complexos e avançados para a idade; grande criatividade e imaginação e interesse em experimentar coisas novas; concentram-se intensamente num tema de interesse, dispondo de elevada energia e vitalidade com períodos de esforço intensos; são normalmente empáticos e têm grande desejo de ser aceite pelos demais; sendo mais independentes, preferem o trabalho individualizado; e, têm um grande sentido de humor.

Se atendermos a estas caraterísticas e ao espanto necessário que leva à aprendizagem, percebemos também que a estes alunos na grande parte das aulas a que estão sujeitos, não lhes escapará o tão desejado “Aaaah...”. Muitas aulas, muitas horas, muitos dias passarão sem que a aprendizagem exista, sem que estes alunos, muito instruídos por certo, sejam.... sábios. Não porque o professor assim o quis, antes porque as caraterísticas específicas que estes alunos apresentam assim o determina.
A arte de aprender é então a arte de se espantar....
Provocar o espanto nos nossos alunos: a sabedoria de quem ensina.
Bem hajam!

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