Correio do Minho

Braga, quarta-feira

...de Sobredotação (IX)

O Estado da União

Escreve quem sabe

2012-06-26 às 06h00

Cristina Palhares

Uma das grandes formas de aprender, milenar também, é através das narrativas: contar histórias, ouvir histórias. Hoje deixo-vos uma: de uma menina. Um testemunho na primeira pessoa, que escrevi juntando algumas histórias de meninos e meninas que tenho vindo a acompanhar. Acredito que reflete tudo o que fui escrevendo nestas crónicas nos últimos meses: uma história de vida. (Pequenos excertos para que coubessem neste espaço).

“Nasci com 33 semanas, 3,300 Kg e 53 cm. Tantos três... Tudo dentro da normalidade tal como disse o médico à minha mãe. Uma das primeiras coisas que aprendi foi a olhar para a minha mão. Que engraçado... passava horas a olhá-la, primeiro sem saber que era minha e depois percebendo que a minha vontade a fazia mexer, esticar, encolher, sem saber que seria ela causa de tantos dissabores nos primeiros anos de escolaridade. Como eu palrava muito e não dizia nada de jeito, as minhas primeiras palavras foram um verdadeiro milagre. Até já tinham dito aos meus pais que eu devia ser um bocado atrasada...
Ao fim de 30 dias já formava pequenas frases e foi assim que de atrasada passaram a dizer aos meus pais que algo devia estar a acontecer comigo... não era normal uma menina tão pequenina ter já um vocabulário tão vasto e uma linguagem tão desenvolvida. Vai lá alguém entendê-los!... Lembram-se de que eu já pegava muito bem nos lápis e adorava escrever as letras iguais às do meu puzzle? Não? Ainda não tinha dito? Pronto, disse agora.
Nos primeiros anos de infantário, não cuidavam quase nada de mim... A sério!
Não era preciso... Eu é que ajudava a cuidar dos outros meninos da sala e fugia muitas vezes da sala. Ia para a cozinha conversar com a cozinheira, uma senhora muito simpática e que ainda hoje a recordo com muito carinho. Ou então, o que acontecia ainda mais vezes, para a secretaria. Era aqui que eu gostava mesmo de estar. Aos 3 anos já falava ao telefone, quando o pousavam para ir chamar alguém. Também contava histórias pelos livros aos meninos, pegava-lhes na mão para os ensinar a pintar, arrumava a sala toda... enfim, era feliz e fui-o até aos 5 anos!
Até que chegou o meu primeiro dia de aulas. Adorei poder mostrar os meus livros e cadernos novos, a minha pasta nova e, principalmente o meu estojo. Mas, afinal, neste meu 1.º ano pouco aprendi. Foi uma seca! Tudo o que eu escrevia e lia não tinha importância. Tive que voltar a aprender, como se já não soubesse nada? Mas ia sempre para a escola na esperança de um dia aprender coisas novas. Em casa, comecei a dar algumas preocupações aos meus pais: dores de barriga, enxaquecas que eu sabia dizer tão bem, insónias, e daí a fazer um exame geral médico foi um passo. Análises ao sangue, ecografias, enfim, infelizmente estava tudo bem. Mas eu devia ter alguma coisa!
Entretanto chegou o final do 1.º ano e no início do 2.º a diretora e a minha professora resolveram chamar os meus pais. Propuseram que eu passasse para o 3.º pois começava a portar-me muito mal. Não parava quieta, só queria fazer contas difíceis, lia com muita velocidade, enfim... afinal já estava ao nível dos meninos que estavam no 3.º ano. E foi aqui que comecei a conhecer os psicólogos. Faziam-me perguntas difíceis, jogos engraçados!
O 3.º e 4.º ano foram muito difíceis. Estava sempre de castigo, nem sei bem porquê... Mal falava, logo de castigo... Até vinha com a minha “mobília” para o corredor! Mas durante este tempo voltei a fazer novos exames médicos. Eu devia ter qualquer coisa mas ninguém descobria nada... eram mesmo incultos.
Então como é que me doía tanto a cabeça ou a barriga?
Aliás, quando saía da sala para tomar chá ficava logo boa... O chá devia fazer mesmo bem à doença que eu tinha, mas ninguém a descobria.
As minhas notas foram sempre muito boas, mas vinha na ficha de avaliação sempre, sempre o mesmo: irrequieta, mal comportada, nunca esperava pela minha vez para nada, respondia pelos outros, e... o que me acompanhou durante muitos anos, “tem capacidade para ser melhor mas não estuda o suficiente”.
Fui para o 5.º ano. Foram anos em que chorei muito. De raiva... primeiro! Depois, de incompreensão. Já no 7.º e 8.º tudo se foi tornando mais fácil. A minha diretora de turma foi excelente. Tive com ela conversas intermináveis, e ela valorizava tanto tudo o que eu fazia... E ensinava com tanto gosto... Via-se mesmo que adorava estar connosco. E ensinava muito também. Tínhamos mesmo que nos aplicar. Tive teatro e filosofia, para contactar com alunos mais velhos. Os professores compreendiam-me melhor...
E agora até queriam que eu falasse! Lembram-se da minha mão? Aquela que eu tanto mirei em pequena, que cedo começou a escrever e que durante uns tempos parou para fazer apenas aquilo que queria? Pois tornou-se outra vez o meu centro. Hoje, estou eu, num palco, representando, com um microfone falando a uma multidão! Na redacção de um jornal... Escrevendo, lendo, de caneta azul na mão. A minha caneta azul! E daqui a uns tempos, que velhota!!! Estarei numa missão qualquer, internacional, pois estará tudo com auscultadores de tradução simultânea...
E eu falo, falo... Aquilo que eu soube fazer sempre tão bem. E ainda, ouvindo, num pequeno gabinete... crianças, pais, professores, rabiscando algumas notas. Talvez passando o meu testemunho, ajudando aqueles que, como eu, também choraram na escola, também tiveram notas menos boas, também encontraram professores menos bons, mas, ajudando aqueles que, como eu, também sorriram na escola, também tiveram boas notas, também encontraram professores bons, e... como eu, se tornarão maiores que a própria vida!”

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