Correio do Minho

Braga, quarta-feira

... de Sobredotação

O que nos distingue

Escreve quem sabe

2011-10-18 às 06h00

Cristina Palhares

Está a começar a ficar na ordem do dia! (Começa é a haver muitas coisas na ordem do dia...). As crianças sobredotadas existem, quer queiramos reconhecê-lo ou não. Não depende da nossa vontade. Tal como dizia o Professor Tourón da Universidade de Navarra (Espanha), e já em 1999, o importante é não arruinarmos as suas possibilidades, por abandono ou negligência, por comodidade ou ignorância.

Voltando um pouco atrás no tempo, com a Declaração de Salamanca de 1944, em que era reconhecida a importância das escolas na inclusão de crianças sobredotadas, surge uma Recomendação do Conselho da Europa que reflete a necessidade da criação de condições educativas apropriadas que permitam desenvolver plenamente as capacidades das crianças sobredotadas.

Pena é que, volvidos mais de vinte anos o nosso país continue insistentemente a recusar reconhecer e identificar. Toda a investigação a nível internacional refere uma percentagem de incidência que não nos permite sequer negligenciar: 3 a 10% da população escolar (consoante os critérios dos diferentes países) é sobredotada. E se a estatística engana quando a reduzimos ao universo de uma escola, não o pode fazer quando a ampliamos ao universo nacional.

Poder-se-ia afirmar que a estratégia de não identificação implicaria o não abandono, a não negligência, pois as crianças sobredota-das simplesmente não existiriam... qual avestruz de cabeça enfiada na areia. Sobressai então a comodidade e a ignorância. A comodidade porque é muito mais cómodo que elas não existam, não implica dispêndio de atenção diferenciada por parte do professor.

A ignorância, a eterna desculpa para que a identificação não seja feita: não sei, não conheço, nunca vi. Mas já não há desculpa: culpem Steve Jobs, mas a ignorância deixou de ter lugar no mundo. E não é ele um ícone da sobredotação? Com certeza que sim, da genialidade. É nesta hora que a ignorância não nos permite deixar de ver e ouvir as suas palavras: na escola não tinha tido grande sucesso... para grande pena dele. Licenciatura? Só com honoris causa. Afinal a escola nem sempre espelha as reais capacidades dos seus alunos.

Mas voltemos à ignorância: ignoramos aquilo que queremos, pese embora o facto de que não é por querermos que deixamos de ser ignorantes. E nós já não queremos: ou antes, não pode-mos. Não podemos ser ignoran-tes no que a esta questão diz respeito: foi “decretado”, em 2005, pelo nosso Ministério da Educação que, alunos com caraterísticas excecionais de aprendizagem (e cabe a nós, professores, decidir quem eles são) poderão usufruir de um plano de desenvolvimento.

Um primeiro passo na intervenção, sendo certo que caraterísticas excecionais de aprendizagem não implicam necessariamente sobredotação, mas normalmente o contrário sim. É no entanto um pequeno passo na aceitação da diferença, porque é essa que hoje me traz aqui. Como dizia alguém, já há uns onze anos, numa das nossas abordagens junto do ministério da educação: temos que satisfazer outras necessidades antes de pensar nas crianças e jovens sobredotados.

Nada mais falacioso. O sistema educativo necessita que pensemos em todos, que satisfaçamos as necessidades de todos. Eu estou à vontade para o dizer: trabalho com as duas faces desta mesma moeda e são as duas faces minhas prioridades. Acredito que, como eu, muitos professores o façam da mesma maneira.
Bem hajam!

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