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Braga, quinta-feira

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De terço

As bibliotecas e as leituras no verão

De terço

Escreve quem sabe

2021-09-05 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Para a Primavera a França vai a votos. Reconfirmarão Macron? Quem aposta na contestação que desde cedo suscita, quem realça mobilizações como as dos coletes amarelos, dos anti vacinas e anti vistos sanitários, pois esses farão contas a que frágil seja o cimento que agrega quanto trânsfuga se converteu ao macronismo meia dúzia de anos para trás, que quaisquer 5% de queda nas intenções de voto sape partido levantado à pressa, como essas construções do Haiti que desabam ao menor abalo.
Relevando da incongruência, não tenho como não me deter no esdrúxulo da intervenção militar no Afeganistão, em duas décadas de milhar de milhões aplicados na promoção da democracia, no combate a milícias que pecabilizam a música, a pintura e a escultura, o humor com o que escolhamos por alvo, a mulher, o homem, a sedução e a luxúria do olhar. Dinheiros atirados ao lixo, que não deram para esmagar ou comprar adversários, para criar força que de dentro se sobrepusesse a trogloditas de tiro para o ar.

Quero retornar a rendas francesas, mas uma irritação mói-me o nervo sensível e assim calculo que, com o esbanjado neste período, se conseguiriam erguer cidades que não ruíssem a cada sismo que se desencadeia nas Caraíbas. Que padrão de superioridade se aplica a quem malbarata recursos para levar a outrem o que repudia, em detrimento do que terceiro acolheria de braços abertos?
Valham-me as eleições. Valérie Pécresse imagina que ganhará. Pécresse é um dos candidatos da direita clássica, i.e. entre o liberal e o conservador, por oposição à direita objectivável em Marine Le Pen e em Eric Zemmour, que será ou não candidato, dependendo de cedências ao Ego ou a vaga de fundo.

Pécresse é uma figura política com estágio. Eric Zemmour é um comentador e publicista, é um baterista que vai de baquetas à tarola da História Política, ao surdo da Religião, aos timbalões da Sociologia, ao prato de choques da Ideologia. Zemmour não se embaralha, mas não irá longe, por preconceitos. Com o realce de quem preside ao gabinete regional da Île-de-France, Pécresse só terá que passar a perna aos adversários do seu círculo, cada um dos quais pedindo meças em aberração aos competidores. Sim, porque o PS pós Hollande é uma anedota, porque a esquerda garrida de Mélenchon se esvai na viragem dos dois dígitos, e porque a direita dita patriótica sempre avança qualquer coisinha, mas morre na praia. Em suma, abale Macron, que a Pécresse numa pressinha ocupa o pedaço, para mais sendo mulher, o que só lhe trás vantagens, dada a toxicidade do complexo de Adão.
Valha a verdade, o PS dispõe de um trunfo, a Maire de Paris, Anne Hidalgo, mas vejo-a como o Santana Lopes, como quem sabe que perderá pau e bola se avançar.

Tem dias uma entrevista da Pécresse. Com mão de jogador de póquer, diz-se dois terços Merkel e um terço Thatcher. Com tanto terço temi que me falasse na Irmã Lúcia! Saneei o incréu, corri-o a salpicos de água-benta. Convocando Hegel e Fukuyama, senti-me no Fim da História, que só por apocalipse um estadista francês enverga o absurdo de se confessar um frankenstein cosido com pedaços de adversários de sempre.
Histórias em que sempre aparece quem diga que o rei vai nu. Eis que, quem não entende o enxerto, lhe pergunta como seja ela o quê de quem. Dois terços Merkel na capacidade de negociação, um terço Thatcher na determinação, explica.
Entre a inglesa, que já pouco lembrámos, e a alemã, que longamente qualificamos como coveira da Europa, espero que os meus leitores façam uma ideia do que possa vir a passar-se em França.

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