Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Degrau a degrau, sempre a descer...

O mito do roubo de trabalho

Ideias Políticas

2012-05-15 às 06h00

Pedro Sousa

Os últimos dias foram férteis em episódios políticos de mau gosto. Na passada quinta-feira, em plena Assembleia da República, Vítor Gaspar, que é, convém lembrar, Ministro das Finanças, afirmou que não compreendia os mais recentes números do desemprego. Grave. Mais grave o que se lhe seguiu, quando afirmou que este agravamento não corresponde a nenhum padrão histórico conhecido.

Eu não sou especialista em questões económicas. Sou, apenas, um curioso, um estudioso informal do fenómeno, valorizando-o enquanto ciência social que tem implicações directas e indirectas no quotidiano dos países, das comunidades, das famílias e dos indivíduos.

É nessa qualidade que quero dizer ao Dr. Vítor Gaspar, académico de referência, recuperando um excerto de uma crónica escrita para o Correio do Minho, já lá vão seis meses, onde explico que o caminho seguido só poderia resultar em mais falências, mais desemprego e um futuro mais negro para Portugal e para os Portugueses.

Dizia na altura que: “...ao retirarmos rendimento às famílias enfrentaremos, naturalmente, uma redução no consumo, a que se seguirá, também naturalmente, uma redução da produção dos diferentes bens e serviços pois haverá uma quebra na procura dos mesmos, assim, serão cada vez mais as indústrias e as empresas que enfrentarão cenários de crise e de ruptura (sabendo que são muitas aquelas em que isso está na eminência de acontecer mesmo antes dos efeitos terríveis deste Orçamento de Estado), lançando milhares e milhares de pessoas no desemprego e agravando sobremaneira, e sem solução à vista, o cenário actual”.

Chega a esta conclusão qualquer aluno de economia na primavera do seu ciclo de estudos superiores, razão pela qual não acredito nas palavras do Ministro das Finanças. Qual moicano da austeridade, Vítor Gaspar mantém o discurso segui-dista do eixo Merkozy. Será que ainda ninguém lhe explicou que o eixo perdeu uma das rodas? Ou será que ele não quer que lhe expliquem?

O próprio FMI vem falando da urgência de somar políticas de incentivo à economia, de crescimento económico e de criação de emprego às “nossas” já bem conhecidas políticas de controlo das contas públicas. A Comissão Europeia e o BCE acertam, também, agulhas sobre esta necessidade e sobre um pacote de duzentos mil milhões de euros para investir em infra-estruturas, energias renováveis e áreas tecnológicas.

Infelizmente, tudo isto corre o risco de chegar fora de tempo e de todas estas políticas de nada vale-rem. A espiral recessiva na economia portuguesa sente-se hoje de tal forma que todas estas iniciativas podem chegar a ser uma espécie de paliativo. O problema reside no facto de que quando a doença é avançada, grave, profunda, o tratamento, mesmo que seja o adequado, será sempre insuficiente se chegar fora de tempo. Temo que seja o caso.

O dislate prosseguiu com o episódio relativo ao Documento de Estratégia Orçamental e com a sonegação, pela parte do Governo, de uma adenda com as previsões da evolução do desemprego em Portugal.
O Governo, esquecendo o episódio do PEC IV, que sedento de poder aproveitou para derrubar um outro Governo democraticamente eleito um ano e meio antes, escondeu de forma espúria parte importante de um documento, enviando-o para Bruxelas mas não o facultando a nenhuma das forças com representação parlamentar.

A política portuguesa precisa de estabilidade. Precisa de compromissos. O tempo político assim o exige. O Governo com este episódio do Documento de Estratégia Orçamental, a que se pode somar, ainda, a não inclusão dos contributos do PS no último Orçamento de Estado e a rejeição da adenda proposta pelo PS para o Pacto Orçamental Europeu demonstra que acredita, apenas, em consensos feitos consigo mesmo. Este comportamento faz lembrar o jogo das escondidinhas, o famoso jogo infantil, em que o Governo, malandro, esconde os documentos e não nos conta tudo.

Passos Coelho ainda teve a lata, após este episódio, de dizer que está cansado de “Crises artificiais”. Perdoem-me, mas a este respeito não posso deixar de lhe perguntar: “Sr. Primeiro Ministro, lembra-se do PEC IV?”

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias Políticas

11 Dezembro 2018

Cultura plena

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.