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Depois da festa, a realidade

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Depois da festa, a realidade

Escreve quem sabe

2024-05-14 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

Parece ser opinião de uma larga maioria de pessoas livres que à Democracia corresponderão os melhores sistemas políticos conhecidos, apesar das suas muitas falhas. Este mundo que construímos parecia ser irreversível e acessível à maioria da população. Pedia-se a todos, sobretudo aos jovens, para acreditarem e serem cada vez melhores e esforçados na procura do sucesso. O mérito trazer-lhes-ia o merecido reconhecimento. Este é o caminho de vitória da sociedade liberal, capitalista e democrática. Portugal chegou tardiamente à Democracia. Nos últimos 50 anos assistimos a um desenvolvimento económico e social extraordinário. Sem Democracia, não integraríamos a Comunidade Europeia, principal responsável pelo sucesso económico que vamos tendo.
Todavia, olhando o Mundo atual, e Portugal em particular, parece-me que isto é cada vez menos o entendimento de muitos, visível nas críticas aos políticos e às políticas vigentes e às eleições, razões suicidas para a democracia a quem cabe especial responsabilidade aos partidos políticos que conhecemos, que não se cansam de se digladiar no maldizer dos seus pares, tudo condimentado por uma perceção generalizada da corrupção crescente, levando a que sejam cada vez mais aqueles que admitem, quiçá aspirem, que venha quem mande, quem seja duro e imaculado para por em ordem o exercício do poder politico.
O povo reage a qualquer dificuldade e hoje elas são muitas e crescentes. Começaram na subida da inflação e dos juros devido às falhas do excesso de financeirização da economia e do imobiliário. Depois, veio a Pandemia e agora as guerras por um novo modelo de domínio da economia e da política a nível mundial, com as potências não democráticas a assumirem-se como poderosos que olham para nós como ameaça aos seus demandos de poder autocrático.
O povo tem memória curta. A Democracia deixou de ser o sistema que representa a vontade de todos. Não foi só Fukuyama que se enganou; a história não só não acabou, como tende a revisitar as suas amarguras que o poder autocrata impõe. Apesar de sabermos que os povos com políticas liberais e democráticas tiveram um crescimento de riqueza e um aumento da sua qualidade de vida nos últimos 100 anos como nunca a história registou, sobretudo no “Mundo de cultura ocidental”, vamos desprezando a Democracia como de um fato velho e usado se tratasse. O nosso mundo está a mudar rapidamente, mas agora em direção inversa ao caminho que a Democracia prometia generalizar.
O mundo obriga-nos a mudar, mas os nossos políticos e as nossas organizações parecem continuar como se estivéssemos ainda no princípio do século passado. Os Partidos políticos atuais, não se dão conta que a grande maioria das dificuldades da nova sociedade mais educada, esclarecida e mais equilibrada socialmente, são diferentes das do modelo de luta de classes do século passado; que a forma como são representados nas instituições de poder em Democracia está obsoleta e já não o identifica na sociedade;
Não se dão conta que o povo e as novas gerações já estão cansadas de continuar a ouvir defender a exclusão mútua como modelo de alternância para governar.
O mundo esta hoje mais desequilibrado e mais complexo. É preciso assumir a verdade sem receios dos reparos ao “politicamente correto”; ter a coragem de impor regras e não apenas direitos; fazer diminuir o fosso entre quem tem muito e o resto da sociedade, sem necessidade de extorquir, mas impondo limites à usura e ao desperdício do luxo; tornar mais equilibrada a distribuição de riqueza criada, sem ser pela subsidiação.
Portugal não é diferente. Temos todos que nos preparar para mudar, mas os principais partidos democráticos não dão um passo para fazerem as mudanças estruturais de que falam. Sabem que a nossa Constituição os obriga a entendimentos para formar maiorias significativas no Parlamento, mas unem-se mais com o propósito do contra, em coligações negativas, em vez de um entendimento negociado nas políticas em que se aproximam. Parece-me que as suas preocupações se centram no poder e na oportunidade da alternância do exercício do poder que a Democracia acabará por lhes facultar. Há uma desilusão que se transmite na abstenção. O povo está a ficar cheio deste modelo de alternância.
Um povo revoltado dará oportunidade a quem lhes prometa um paraíso ainda melhor. Vencerão os populistas. Provavelmente perderemos a liberdade, ou parte dela. A Democracia será corrompida por dentro. Não deixemos que à revolta suceda a desilusão. Aí chegados, feriremos a liberdade com golpes profundos.
Não pensem que a liberdade de Abril é única e duradoura. A liberdade é relativa e não absoluta.
Confesso-vos que tenho receios na subida da direita iliberal. Não somos imunes a tendências que crescem no tal “Mundo Ocidental”. Temo que só quando os partidos democráticos, que têm assumido a liderança da governação em Democracia, só darão conta do erro, quando esta direita mais extrema os ultrapassar nas urnas. Aí, talvez se saibam unir, mas talvez possa ser tarde. Oxalá não.

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