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Deriva conservadora e reacionária

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Deriva conservadora e reacionária

Ideias

2024-04-21 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

1. As eleições legislativas foram há pouco mais um mês, mas a extrema direita conservadora está a levantar todos os véus dos seus barcos rumo ao passado. Já se acha normal que volte a falar-se de ideias e situações que fazem regressar Portugal aos tempos de Oliveira Salazar, num retrocesso civilizacional abominável, como aquela idiotice de voltar a remeter as mulheres ao estatuto de “donas de casa”.
É claro que são minorias políticas a levantar a voz, mas não deixam de ocupar em demasia os suportes mediáticos, sobretudo se forem protagonizados por gente polémica, nem sempre no melhor sentido.
Há uns dias, foi apresentado por um inqualificável Passos Coelho, que se diz social-democrata, mas que que defende ideologia de extrema direita (o líder do Chega estava, extasiado, na assistência…), um livro denominado “Identidade e Família”, que reúne contributos de dezenas de pessoas da direita conservadora. E não é preciso gastar dinheiro para saber do que trata e das ideias bolorentas que dele transpiram.
Passos Coelho prestou-se a ser voz e eco desse manifesto antiprogressista, que alegadamente defende as chamadas famílias convencionais, denuncia a pretensa “sovietização do ensino com uma determinada perspetiva”, e outras barbaridades mais próprias de uma ideologia neofascista.
Até Rui Rocha, do Iniciativa Liberal, considera que o livro “traduz uma visão retrógrada, uma visão ultrapassada”.
Enquanto um comentador do Expresso, que não é propriamente de esquerda, Henrique Raposo, escreve: “O livro em causa cheira a caruncho, a madeira decadente, a móveis por tratar. Foi escrito pelos alegados defensores da Vida e da Família, mas, na verdade, revela sobretudo ódio pelas famílias reais de 2024 e por vidas reais. (…)”.
E acrescenta Raposo, noutro extracto: “Estes números espantosos das famílias homossexuais revelam que a vida tem muitos caminhos, tal como a família. E há mais amor numa família homossexual que adota crianças do que nestes arautos da Família e da Vida. Aliás, há amor nos casais homossexuais que criam filhos; neste tal livro que junta Passos e Ventura, cheira-se apenas o ódio, o moralismo e a incapacidade para aceitar que há várias formas de amor, de vida, de família”.
Por este andar, dizemos nós, e pelas ideias reaccionárias, machistas e negacionistas que já levantam a cabeça, qualquer dia vai voltar a ser proibido pôr em causa “a moral e os bons costumes”, as mulheres voltam a ser remetidas à casa, à cozinha e à Igreja, como no tempo da “outra senhora”, que pelos vistos ainda tem apaniguados que escrevem livros, passado meio século desde a data libertadora de 25 de Abril de 1974. E a questão não é de aceitar a liberdade, que é universal e bem-vinda, conquista bendita da Revolução dos Cravos, mas o facto de se estar a sobrevalorizar ideias minoritárias, quadradas e que estão já ao arrepio da História.
Claro que Passos Coelho tem a sua agenda política e que não passa pela ideologia social-democrata, mas antes pela aproximação ao ideário da extrema-direita populista. Por isso, as diatribes absurdas a respeito da família, parte delas sem pés nem cabeça, ou questões sem qualquer sustentação estatística ou científica, como a que relaciona imigração e insegurança, apenas baseada na “percepção” de alguns nefelibatas… Ou se calhar do próprio…
O propósito último é posicionar-se para uma candidatura às próximas presidenciais, suportado numa extrema-direita.
Passos Coelho quer ser o candidato presidencial do Chega e de outras forças reaccionárias, aproveitando a deriva conservadora e extremista que anda por aí, pelos maus caminhos. Não será muito fácil, até porque os portugueses não devem ter a memória tão curta como alguns querem supor, e todos se lembram de um primeiro-ministro que cortou selvaticamente ordenados e pensões, convidou os jovens a emigrar e fez mil tropelias escusadas, gabando-se de “ir além da troika”.
A troika impunha um determinado conjunto de medidas restritivas, mas Coelho tinha de ir mais além, destruindo empregos, famílias, esperanças, sonhos, só porque queria ficar bem na fotografia de “bom aluno” da então “dona da Europa”, a chanceler alemã Angela Merkel.
É nesta base que claramente Passos Coelho se move, contra a memória de um tempo agreste que muitos portugueses jamais perdoarão, como é evidente, por muito tempo que passe, porque sofreram na carne os abusos escusados de medidas que poderiam ser evitadas ou atenuadas, e não o foram por mero caprichismo político.

2. O novo governo tem poucos dias de vida, mas já se enredou em casos e casinhos, como a comunicação social tem relatado, a lembrar o anterior executivo de Costa, que Montenegro tanto criticou.
Montenegro que, na campanha eleitoral, decretou o fim dos truques na política, sobretudo no IRS, mas que se emaranhou na teia que foi tecendo, cheia de patranhas para ganhar votos.
Tudo a propósito do chamado “choque fiscal”, que se revelou uma aldrabice.
Como a imprensa revelou por estes dias, em Agosto de 2023, no Pontal, o líder do PSD defendia, referindo-se ao então governo de Costa, que “o esbulho fiscal tem de acabar”, para, no mês seguinte, apresentar uma proposta de redução do IRS em 1,2 mil milhões de euros. O PS não a aprovou, mas acabou por redigir um Orçamento do Estado para 2024 com a promessa de aliviar em 1,3 mil milhões de euros o IRS.
Não satisfeito, em janeiro de 2024, e já com eleições à vista, o PSD prometia “a maior redução de carga fiscal em tempo de crescimento económico de que há memória”, com o esforço de alívio do IRS a superar o desenhado para o IRC.
Há dias, no Parlamento, Luís Montenegro indicou aos deputados que a descida das taxas de IRS iria “perfazer uma diminuição global de cerca de 1500 milhões de euros nos impostos do trabalho dos portugueses face ao ano passado”.
Entretanto, desde o início de 2024 que vigoram as regras do Orçamento do Estado aprovado pelo PS, incluindo as mexidas em sede de IRS que vieram trazer o já referido alívio de 1,3 mil milhões de euros… face ao ano passado.
Afinal, o “choquinho fiscal”, ou o “retoque fiscal”, ficou-se pelos 350 milhões de euros, porque o resto vinha de trás, do governo do PS. Se não é aldrabice avançar com números que provêm do orçamento em vigor, juntando uns modestos pós, é o quê?
E houve comentadores, pouco isentos, obviamente, que vierem afirmar que, afinal de contas, o governo não mentiu, mas também não foi claro: “criou e alimentou a ambiguidade”. Balelas para entreter crianças adormecidas…

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