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Descobertas

A cor é Rosa!

Descobertas

Voz aos Escritores

2021-09-03 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Pequenos encantos que nos inundam mais uma certa forma de estar do que propriamente os olhos, embora seja maioritariamente por eles que recebemos os estímulos e as evidências dessas mesmas descobertas.
Às vezes sempre estiveram à nossa frente e apenas deixamos cair o lenço que nos toldara a visão. Outras é mesmo uma revelação, uma primeira vez em contacto com, que nos acrescenta e alarga horizontes. Enriquece a caminhada e, como uma religião, acredito ser para isso que por aqui andamos.

O Verão está a dispersar os últimos calores, mas regresso ao início deste para fazer um roteiro sobre esta abertura à novidade. Uma perpendicular à Rua da Devesa, tão ali, meia abandonada na sua reconstrução, meia perdida na sua ruralidade abafada pelo urbanismo crescente em seu redor, tão aqui perto. Um trator que avança no seu ritmo característico pela Rua do Raio fora, às três da tarde, a comprovar o que sinto a ecoar desde sempre. Braga, uma aldeia que se excedeu. Com tiques de sôfrega modernidade, às vezes em si uma saloiice, ainda assim uma aldeia com aspiração e vaidades de grande cidade.

Mas este roteiro passa por outro tipo de céus abertos em pleno Verão. Os catastróficos incêndios que assolaram os dias mais quentes por esse mundo fora, os negacionistas das alterações climáticas, do Covid-19, das vacinas, devem viver sob um céu verde e não azul. Há ainda a quem não chegue um céu azul nem verde. Questiono se sentirão o céu que lhes cobre a vida ou se sequer olharão para ele. Que pensamentos lhes ocorrerão ao levantar os olhos em direção ao dito? Falo dos haitianos, dos afegãos e de outros tantos cíclicos miseráveis filhos de um deus menor.
E se para os haitianos a ajuda humanitária é a única coisa que podemos fazer (o Homem ainda não controla o tempo, apesar de contribuir para o seu desequilíbrio), para os afegãos a conversa é bem diferente. Não aprendemos nada com a História. Onde estão as forças aliadas de combate ao terrorismo? Só quando nos batem à porta é que reagimos, num eco das palavras de Martin Niemöller.

Pelos entretantos dos dias quentes, descobri ainda que Fernando Pessoa escreveu uma carta assinada no feminino. Não se poderá dizer que seja uma heterónima, mas talvez uma tentativa. Pelo menos um eu no feminino, denominado Maria José. Será que o grande génio da literatura portuguesa tentou abraçar o entendimento no feminino? Será que até ele desistiu? Aconselho a leitura de “A carta da corcunda para o serralheiro”.
E no campo das descobertas literárias, considerando a Bíblia uma das suas mais belas manifestações, conhecem o Cântico dos Cânticos do Antigo Testamento? Aparentemente ignorado pelos católicos, aborda o prazer sexual, o amor carnal como parte integrante da obra do criador num texto atribuído ao rei Salomão, mas sem consenso. Como disse o Papa Francisco numa entrevista a Carlo Petrini, o prazer vem diretamente de Deus. Não é católico, nem cristão, nem nada parecido — é simplesmente divino.

O que têm as descobertas de extraordinário? Além de alargarem horizontes, ajudam a construir o nosso património, tantas vezes imaterial, outras tantas retorcido e ainda individual que, com a devida abertura, poderá ser transmissível. É um trabalho de escultura entre o que adicionamos e o que esculpimos com cinzel e martelo.
Uma obra-prima. Talvez a melhor que poderemos fazer enquanto andarmos por aqui. O que nos apropriamos para construir a nossa identidade e o que nos explica um afastamento por falta de sentidos para um sentido tão básico. Tão nosso e tão natural, a latejar-nos a existência desde o início da humanidade.

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