Correio do Minho

Braga,

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Desconstruindo o mito do trabalhador “preguiçoso” da Europa do Sul

O abandono e o adulto difícil

Ideias

2017-06-10 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

É altura de desfazer o mito propalado na União Europeia (UE) por alguns dirigentes de países da Europa do Norte referindo que os trabalhadores de países da Europa do Sul (Portugal incluído) caracterizavam-se pela sua “preguiça” e que até eram bem remunerados face ao seu trabalho. Porém, pelo contrário, está provado estatisticamente que isso não é verdade. Para o caso dos trabalhadores portugueses em comparação com os trabalhadores dos países mais desenvolvidos da UE podemos constatar que, em média, eles trabalham mais horas, possuem menos habilitações literárias e auferem salários muito mais baixos. Tudo isso a propósito de uma publicação especial no 1º de Maio passado (Dia do Trabalhador) de um estudo do Instituto Nacional de Estatística de Lisboa (INE) sobre o perfil do trabalhador português (2016). Ora, de acordo com o estudo o trabalhador português típico caracterizava-se: por ser homem (51,3% da população activa); ter 44 anos de idade; trabalhar na região Norte; trabalhar por conta de outrem e ter um contrato sem termo; estar no actual emprego há 12 anos, no caso de trabalhadores dependentes a tempo completo; trabalhar no sector dos serviços; ter, quando muito, o 3º ciclo do ensino básico e trabalhar normalmente 42 horas semanais, no caso de trabalhadores a tempo completo.
Por sua vez, o trabalhador português típico em comparação com os seus colegas dos países da Europa do Norte (dados do Eurostat) trabalha mais horas, aufere cerca de metade do salário e o seu nível de escolaridade é inferior. Sendo assim podemos inferir o seguinte:
(1) Quantas horas de trabalho? Bem mais: Portugal é o quarto país da UE onde se trabalha habitualmente mais horas por semana, apenas ultrapassado pela Grécia (44,5 horas, o maior valor), Reino Unido e Áustria. O trabalhador português labora em média 42 horas semanais, com 12,7% das pessoas a trabalhar mais de 50 horas por semana. Em suma, o quarto lugar de Portugal na UE significa que os trabalhadores portugueses trabalham mais horas de trabalho semanais, em concreto, tem mais uma hora laboral do que a média europeia (41 horas) mas muito acima de países como a Dinamarca (menos de 39 horas).
(2) Qual o nível de escolaridade? Muito abaixo: Quase metade da população activa portuguesa (48,8%) completou, no máximo, o 3º ciclo do ensino básico e apenas 8,7%, o ensino superior. Apesar disso, verifica-se que a educação superior embora continue abaixo da média europeia (32%) teve uma forte recuperação nas últimas décadas. Apesar dos avanços, a verdade é que a proporção da população activa com educação superior, mantém-se no fundo da tabela dos países da UE, ocupando um modesto 5º lugar a partir do fim. Será ainda de realçar, a propósito, que o governo português definiu uma meta (ambiciosa!) para 2020, a de que 40% da população entre os 30 e os 34 anos venha a ter uma escolaridade superior.
(3) Quanto aufere de salário? Recebe cerca de metade: Dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento, do Ministério do Trabalho português para Junho de 2016, apontam para uma remuneração base de 986 euros mensais, enquanto o vencimento médio bruto na UE era de 1995 euros mensais, quer dizer, o salário médio português era apenas um pouco mais de metade da média europeia. Por sua vez, 19% dos trabalhadores (627 mil pessoas trabalhadores) auferiam o salário mínimo nacional (SMN) cujo valor era então de 530 euros. Portugal situava-se, desta forma, bem perto do fundo da tabela na comparação entre vencimentos anuais médios por trabalhador (valor este em paridade de poder de compra, PPP, isto é, ajustado da inflação). Temos: Portugal com 17 297 euros ou 1 235,5 euros por mês) o que traduz 51,2% do vencimento anual da UE (33 774 euros por ano ou 2 412 euros mensal). O país com o mais elevado salário médio anual na UE era o Luxemburgo com quase 49 mil euros, pelo contrário, os países com os piores desempenhos nesta matéria eram a Roménia (12 557 euros) e a Bulgária (12 026 euros). Mais um dado curioso a referir é o que diz que o custo de uma hora de trabalho era em 2016 de meros 13,7 euros em Portugal face aos 25,4 euros verificados na média da UE.
Por fim, será de realçar o facto de se ter vindo a assistir nas últimas décadas ao aprofundar da desigualdade social em Portugal, em concreto, o peso dos salários em relação ao rendimentos do capital (rendas, juros e lucros) tem vindo a baixar significativamente, passando de 60% em 2003 para apenas 52% em 2014!


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