Correio do Minho

Braga,

Desemprego atingiu níveis pavorosos

Amigos não são amiguinhos

Ideias

2012-02-21 às 06h00

Jorge Cruz

O ministro da Economia considerou, em entrevista à CNBC, que “o equilíbrio entre austeridade e crescimento é sempre muito delicado”, garantindo que “ninguém tem uma solução sobre o assunto”, pelo que “apesar de toda a volatilidade, temos de manter o rumo para sair desta situação”.

Na citada entrevista, concedida na semana passada, Álvaro Santos Pereira mencionou as dificuldades de financiamento das empresas como o principal problema, apontando o dedo acusador aos bancos. “Temos definitivamente de garantir que os bancos começam a emprestar dinheiro às nossas empresas” porque “não é do interesse de ninguém que as nossas empresas fechem por falta de financiamento”, observou o ministro antes de concluir que “podemos fazer as reformas que quisermos mas, se pelo caminho as empresas não sobreviverem por falta de crédito, não lhe estamos a prestar nenhum serviço”.

Vamos por partes: curiosamente, quando não pensava sequer em desempenhar funções governativas, não vai assim há tanto tempo, o então professor universitário parecia ter todas as soluções para vencer a crise nacional.

Na sinopse do seu livro, Santos Pereira prometia que Portugal na Hora da Verdade, assim se chama o seu último trabalho editado na Gradiva, responde a todas as questões que afligem o país, “numa linguagem acessível e clara”, afiançando ainda que a obra apresenta “novos dados e uma interpretação mais abrangente da crise nacional, seguidos de soluções concretas para os problemas económicos do país. É, portanto, - concluía - um livro fundamental para compreender as dificuldades actuais e pensar em saídas possíveis para a crise nacional.”

Infelizmente para os portugueses, ou as soluções preconizadas por Santos Pereira não são exequíveis em Portugal ou, sendo-o, não serão tão eficazes como ele supunha, uma vez que não resolvem os problemas, bem pelo contrário, parecem até agravá-los.
Com efeito, o número de portugueses sem emprego continua a aumentar assustadoramente, tendo atingido, no final de 2011, a soma astronómica e até impúdica de 1,24 milhões de pessoas, a que corresponderia uma taxa de desemprego ajustada de 22,6 por cento.

É certo que o valor oficial da taxa de desemprego avançada pelo Instituto Nacional de Estatística é de 14 por cento, a que correspondem 771 mil desempregados. Contudo, esses números englobam apenas as pessoas sem emprego que durante o período do inquérito procuraram activamente trabalho. Não abarcam, portanto, os inactivos disponíveis ou desencorajados nem os trabalhadores em situação de subemprego que gostariam de ter empregos a tempo inteiro.

Pegando ainda nos números oficiais, ou seja, em 203 mil inactivos disponíveis, em 83 mil inactivos desencorajados e em 187 mil em situação de subemprego visível, chega-se aos tais 1.240 milhões que corresponderiam à tal taxa ajustada de 22,6. Mas mesmo que se não considerem aqueles que se encontram em situação de subemprego, restarão ainda 1.057 milhões de pessoas sem emprego, ou seja, uma taxa ajustada de 19,2 por cento.

Independentemente de a aná-lise reflectir ou não o número de pessoas que não possuem emprego pleno, portanto mesmo deixando de fora as situações de subemprego, temos de convir que o desemprego em Portugal atingiu níveis que se podem considerar perfeitamente obs-cenos.

O ministro Santos Pereira diz agora, e bem, que a banca tem de financiar as empresas, por forma a garantir a sua viabilidade e, consequentemente, o emprego e a criação de riqueza. Mas o que tem acontecido não tem qualquer correspondência com a ideia agora expressa, bem pelo contrário. E é também por essa razão que as empresas continuam diariamente a encerrar e a lançar catadupas de trabalhadores para o desemprego.

Poder-se-á dizer sem ofender demasiado a verdade que a escassez de dinheiro é a principal responsável pela dramática situação a que a esmagadora maio-ria das empresas portuguesas chegaram. Contudo, se tivessem sido adoptadas outras políticas provavelmente a economia portuguesa não estaria hoje a caminhar assustadoramente para aquilo que poderá vir a ser uma espiral recessiva dramática e de consequências absolutamente imprevisíveis.

Desde logo, parece-me claro existir um certo conflito de interesses não resolvido entre os ministérios das Finanças e da Economia. Não estou a querer dizer que se deve abandonar o objectivo de não agravar a dívida pública e de equilibrar as contas públicas. Creio ser defensável, no entanto, que na presente situação e até com os (maus) exemplos a que assistimos noutras latitudes, seria de todo aconselhável e até, nas actuais circunstâncias, patriótico apostar fortemente no crescimento da economia.

Reconheço que essa opção implica um corte com as políticas que têm vindo a ser seguidas e que, afinal, são a imagem de marca do PSD de Passos Coelho. Mas os interesses do país têm de estar em primeiro lugar, têm de ter a primazia sobre todos os outros interesses, de pessoas singulares ou de grupos, nacionais ou estrangeiros. Por outras palavras, para se poder injectar mais dinheiro na economia é imperioso perder a obstinação e deixar cair definitivamente aquela ideia peregrina de que não precisamos de renegociar prazos e montantes dos empréstimos, de que não necessitamos de reajustar condições com a troika. Quanto mais tarde acontecer pior será.

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