Correio do Minho

Braga,

Desemprego e cultura

O silêncio não erra

Ideias

2010-04-02 às 06h00

Margarida Proença

Os dados divulgados pelo Eurostat, a 31 de Março, sobre a evolução do desemprego na União Europeia dão conta de uma situação que ainda se mantém complicada. A taxa de desemprego na zona euro é de 10%, a mais elevada desde Agosto de 1998. Portugal está nos 10,3%. A Letónia e a Espanha estão no pelotão mais vermelho, com 21,7% e 19%, respectivamente, mas a Holanda (4%) e a Áustria (5%) estão sem problemas.

Para os jovens, até aos 25 anos, as coisas ainda se complicam mais; na zona euro, o desemprego anda pelos 20%, atingindo no caso da Espanha uma assombrosa taxa de 40,7%! Já se esperava que, neste contexto da crise mundial, 2010 fosse o ano pior no que diz respeita ao desemprego, uma vez que as empresas se ajustam com desfasamento à quebra da procura, e infelizmente confirma-se.

No caso da Região Norte, o emprego de residentes diminuiu, como seria de esperar também, no 4º trimestre de 2009 face ao ano anterior. Aliás, reforçando as más notícias, a taxa de emprego dos residentes entre os 15 e os 64 anos foi a mais baixa nos últimos 12 anos (64%). E o desemprego é superior à média do país, tendo atingido os 11,9% no final de 2009, segundo dados da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. No caso dos jovens, entre os 15 e os 24 anos, bateu-se também o máximo, com uma taxa de desemprego de 23,5%.
No entanto, no meio destas tristes notícias, há alguns indicadores em que vale a pena reparar.

Comecemos pela Região Norte. No último trimestre de 2009, as exportações aumentaram, sobretudo em produtos da indústria automóvel, e em máquinas, aparelho e material eléctrico, contrariamente a indústrias mais tradicionais como o vestuário. O rácio de incumprimento bancário diminuiu, e actividade hoteleira apresentou uma tendência positiva. O salário médio em termos reais, ou seja, o poder de compra, aumentou cerca de 4,7% face a 2008, embora ainda se mantenha em valores mais baixos que para Portugal.

Ainda de acordo com os dados da CCDRN, a perda de emprego regional tem vindo a ocorrer fundamentalmente em trabalhadores que têm, no máximo, o 9º ano de escolaridade. Por outro lado, a taxa de desemprego nos licenciados situou-se abaixo da registada em 2008. Na verdade, olhando para a evolução nos últimos anos, torna-se clara uma alteração no perfil do trabalhador da Região Norte no sentido de maior escolaridade e competências. Isto indicia uma possível reorganização do tecido económico no sentido de maior sofisticação tecnológica, maior diferenciação da produção e mais produtividade.

No fundo, o que se espera é que os agentes económicos, trabalhadores e empresas, “leiam” correctamente os sinais de um mercado global, cada vez mais exigente. E que a procura por mais educação por todos, e de trabalhadores mais educados por parte das empresas, seja reforçada . E que culturalmente lhes seja reconhecido um valor superior.

As razões do desfasamento tecnológico, competitividade e produtividade entre a União Europeia, os Estados Unidos e o Japão têm sido muito discutidas, e da sua análise decorreu, nomeadamente, a Estratégia de Lisboa. Um trabalho muito recente de Alesina e outros (2010) levanta uma questão interessante. As taxas de desemprego são, em média, mais elevadas na Europa e o mercado de trabalho mais rígido, tem sido argumentado, devido a uma lógica legislativa e reguladora dominante.

Uma explicação alternativa tem a ver com a cultura. As famílias transmitem valores que têm impactos persistentes, entre outros, na procura de educação e no mercado de trabalho. Quanto mais regulado for o mercado de trabalho, menor é a percepção das vantagens decorrentes da mobilidade, e portanto, em termos culturais, as famílias transmitem essa mesma noção. Claro que todos queremos manter os filhos ao pé de nós (eu gostaria, confesso). A questão não é essa. O que os autores mostram é que isso irá dar mais poder no mercado às empresas para manter os salários baixos e taxas de desemprego elevadas.
A economia e a cultura, juntas, são coisas complicadas.

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