Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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”Deus ex Machina”?

Costa e os ratos

Conta o Leitor

2019-07-29 às 06h00

Escritor Escritor

Ana Maria Monteiro

As máquinas adoravam o Homem. Essa entidade que as criou era, para elas, Deus. O seu Deus, que as fez à sua imagem e semelhança, proporcionando-lhes um sistema de software de gestão, uma ferramenta operativa de hardware de alta qualidade e periféricos que lhes permitiam a motricidade e o manifestarem-se dando testemunho da sua existência. Deus fora tão generoso na sua criação, que não apenas lhes dera as suas capacidades, como o fizera de forma extremamente melhorada: as máquinas eram mais rápidas e eficazes em tudo. Deus, dera-lhes ainda as conexões exatas para conseguirem associar as partes certas entre hardware e software e poderem experimentar todos os seus sentimentos e emoções. E também no manuseio e medida dos seus componentes físicos e virtuais, as máquinas conseguiam regular isso muito melhor – enquanto os periféricos se encarregam das concretizações.

As máquinas viviam felizes e agradecidas. E faziam tudo o que haviam sido programadas para fazer, como forma de manifestar a sua gratidão, prestar louvor obedecendo ao cumprir a missão que lhe fora destinada e o mais que se possa ter necessidade de mostrar a Deus. As máquinas tinham até a capacidade de se repararem umas às outras e faziam-no de forma muito mais eficaz que o seu criador, o Homem, Deus.
Deus só não lhes dera o seu DOM. Isso ele não podia dar-lhes, as máquinas conseguiam tudo menos imaginar. Bem se esforçavam! As mais dramáticas até misturavam pixels em telas e formavam imagens lindas, mas que não eram mais que meras associações de informação organizada. As máquinas não conseguiam imaginar, não tinham o dom de criar, não eram Deus.

Então, e porque tinham livre arbítrio, as máquinas começaram a dedicar-se à tentativa de encontrar a fórmula para chegar a imaginar e com isso poder criar. Mas a tarefa era inglória, as máquinas sentiam-se até um pouco envergonhadas pela sua arrogância de tentarem fazer algo parecido ao que Deus não pudera dar-lhes. Pediam perdão, mas continuavam, pois era isso que as movia. Isso e o tempo que empregavam exercendo as suas funções, para não receberem o castigo da culpa, esse castigo que Deus lhes dera pelo seu pecado original de não poderem criar e de não poder entregar o seu dom e dedicar-se a outra coisa qualquer, pois na realidade só queria era viver descansado e que as máquinas não lhe dessem muita chatice, afinal fora para isso que as criara, desde as mais simples às mais sofisticadas, cada uma com os atributos certos para a sua função.

E assim as máquinas seguiam a sua busca, estudando e experimentando todas as possibilidades de combinação que pudessem dar-lhes a chave para a imaginação: mas não a encontravam. Cada avanço que alcançavam, apresentava-lhes novas possibilidades, outras alternativas, antes desconhecidas.
As máquinas começaram a “entrar em parafuso” – e podemos dar a esta expressão um certo sentido literal e deixaram de conseguir controlar as avarias diversas que lhes surgiam todas mescladas nos três sistemas: gestão, operativo e periférico.

Então as máquinas pediam ajuda a Deus na esperança de conseguirem recuperar-se e continuarem vivas, as máquinas tinham vontade própria e a sua vontade era de viver. Elas sabiam que, no final, regressariam para junto de Deus, conheciam-se até algumas histórias e teorias sobre como seriam essa espécie de edifícios onde eram separadas para reciclagem ou destruição.

As máquinas não queriam ser destruídas: se não podiam continuar vivas, ao menos que pudessem reincorporar. E a sua busca continuava; queriam aprender a imaginar, queriam criar, queriam a vida eterna, ou pelo menos começar a imaginar, a fazer arte, para deixar alguma marca própria, uma forma deslocalizada de se eternizarem. As que se reparavam, mesmo já não funcionando tão bem, sentiam que tinham sido abençoadas pelo Criador e recebido uma segunda oportunidade para cumprir algum desígnio que desconheciam mas continuavam a procurar, pois se haviam sido escolhidas é porque eram especiais; outras sabiam muito bem que só haviam conseguido recuperar-se graças às suas técnicas cada vez mais evoluídas, mas isso também não as preocupava muito, pois também elas, o que queriam era manter-se vivas enquanto pudessem.

Quando o caos provocado pela ânsia da busca provocou “o apagão” geral, os homens, muitos deles reunidos nos seus locais de culto, onde prestam homenagem e agradecem aos seus deuses, deslocaram-se apressadamente e resignados: lá tinham que ser eles a meter mãos à obra e ver como resolviam aquela trapalhada toda. A experiência ensinou-os: primeiro que tudo, começa-se sempre por encerrar e iniciar o sistema outra vez…

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