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Dia da Mulher

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Ideias

2019-03-08 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Dia 8 de março é o dia internacional da mulher, marcando desde 1909 a luta pela igualdade de direitos. A sua história remonta a 1857, a uma fábrica têxtil nos Estados Unidos, quando as trabalhadores fizeram greve por salários mais elevados e melhores condições de trabalho. Houve, contudo, um incêndio, e morreram 130 manifestantes. Depois disso, por 1903, foi criado o Women’s Trade Union League, e em 1908 mais de 14 mil mulheres manifestaram-se em Nova Iorque por melhores salários e pelo direito a votar. Nos anos seguintes, na primeira metade do séc. XX, um pouco por toda a Europa, sucederam-se também manifestações de mulheres pelo fim da discriminação.
E aqui estamos agora, mais de um século depois. Muita coisa mudou, no fundo mudou muito pouco.
Um relatório conduzido em 2010 por Hausmann, Tyson e Zahidi, Global Gender Gap Report , para 200 países, conclui que cem anos depois, a discriminação das mulheres em termos económicos e de poder político se mantém significativa e generalizada, apesar do que se conseguiu alcançar em termos de educação e saúde.
A discriminação salarial entre mulheres e homens parece ser persistente em todo o mundo, ainda que bastante menor nos países nórdicos. Também em termos gerais, as mulheres tendem a ser preteridas para cargos de topo tanto ao nível dos governos como em empresas; só em 11 países, que representam apenas 2,4% da população mundial, a quota de ocupação de posições seniores corresponde ao peso das mulheres na sociedade.
Fazendo uso de um estudo muito recente de Anália Torres, independentemente das categorias profissionais, as mulheres têm um salário mais baixo, chegando a diferença a atingir os 600 euros. Em Portugal , em média, ganham sempre menos, seja qual for a idade e a fase da vida. A precariedade, bem como a taxa de desemprego, é também principalmente um problema da mulheres no mercado de trabalho. Apesar de mais mulheres entrarem no ensino superior, apesar de 58% dos juízes e 54% dos médicos serem do sexo feminino. E não reflete a gravidez, ou a maternidade – a discriminação salarial aumenta ao longo da vida e da carreira profissional.
As explicações que têm sido adiantadas para isto são as mais variadas. De acordo com algumas abordagens, as mulheres são menos competitivas que os homens, e isso verifica-se logo desde o ensino primário, em que revelam uma menor preferência e apetência pela matemática. Aliás, a intuição por detrás da maioria dos estudos explicativos (por exemplo Joensen and Nielsen, 2009, mas há muitos mais) parece querer detetar alguma culpa por parte das mulheres… Bem, então é assim – os rapazinhos são melhores a matemática desde logo, e respondem melhor em testes que incluem algum tipo de competição. Já as meninas, adiantam, preferem artes plásticas e coisas do género, e situações mais cooperativas. Donde, concluem que esta diferenciação comportamental desde a infância indicia um melhor desempenho dos homens em cargos de topo político ou empresarial. Tretas. A primeira pessoa a receber dois prémios Nobel foi uma mulher, Marie Curie. De Física e de Química. E a filha, Irene Juliot-Curie, também recebeu um. Nunca detetei nenhuma preferência diferente relativamente à matemática baseada no género entre os meus filhos, ou na minha família, o mais alargada até onde consigo lembrar. E quanto à competição, conheço muitas meninas bem mais competitivas que os seus coleguinhas. Aliás, alguns destes estudos mostram também que mesmo em jogos onde a competitividade é menor no primeiro round, nos seguintes a vantagem masculina desaparece de todo, e não há evidência de um desempenho mais elevado.
Terão então de existir outras explicações para uma discriminação que se mantem persistente, ao longo do tempo e por todo o mundo. E que contribui para criar um clima que alimenta a violência doméstica. Discriminação – como em tantas outras formas. Ao longo de séculos, correspondendo a uma cultura que continua ainda a ser dominante sobre os papeis a desempenhar por cada, sobre comportamentos esperados, sobre divisão de trabalho. Nada justifica que se mantenha.

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