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Dia Mundial da Água

Reflexões abertas à sociedade portuguesa

Dia Mundial da Água

Ideias

2020-03-27 às 06h00

Jorge Dinis Oliveira Jorge Dinis Oliveira

Em período de quarentena, em que tantas celebrações foram adiadas ou canceladas, o dia Mundial da Água, assinalado anualmente a 22 de março, não foi exceção. Não foi propriamente cancelado mas foi sem dúvida negligenciado e sinto que é minha obrigação, enquanto geólogo, contribuir para que este dia seja reforçado.
É fácil, em tempos de COVID-19 esquecer que existem outros problemas de saúde, em particular de saúde pública, e torna-se importante recordar, enquanto lidamos com a pandemia e tentamos descobrir uma vacina que nos permita regressar a uma normalidade aceitável, os avanços notáveis que alcançamos enquanto sociedade em relação ao combate a doenças transmitidas pela água.

Ocorreu em 1854, em Londres, na Broad Street (atualmente Broadwick Street) na zona do Soho, um surto de cólera que causou a morte a aproximadamente 600 pessoas. Esta era na altura uma zona pobre, com condições de higiene públicas muito pouco recomendáveis.
O médico inglês John Snow começou a recolher informação acerca do número de cidadãos infetados, de óbitos e a sua localização. Projetou esta informação numa planta da cidade e, suspeitando que a cólera é uma doença transmitida pela água, concluiu que a origem deste surto era uma fonte pública de abastecimento de água. Uma fonte de água cristalina.

Esta história exemplifica bem os desafios que se colocavam, no século XIX, à saúde pública não só em Inglaterra como no resto da Europa. A importância que uma adequada distribuição de água potável tem para a saúde de uma população.
Mas este avanço civilizacional, que temos no mundo ocidental, e que damos por garantido, não está ainda ao alcance de todas as nações.

Há ainda um significativo número de doenças que, mesmo podendo ser prevenidas com recurso a boas práticas sanitárias e de higienização, continuam a ceifar vidas. É o caso das doenças diarreicas agudas que, tendo como causa o consumo de água contaminada, é responsável, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, pela morte anual de 502.000 pessoas.
Algumas das medidas preventivas básicas que devem ser postas em prática são as mesmas que para com o COVID-19: (1) educação para a saúde com informação acerca de como a infecção se alastra, (2) boa higiene pessoal e da nossa alimentação, (3) melhorar as condições de higiene dos espaços e, a mais importante de todas, exclusivamente relacionada com as doenças transmitidas pela água, (4) acesso a uma origem de água potável.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, em 2015, 71 % da população tinha acesso a um serviço de captação e distribuição de água potável; 884 milhões não tinham acesso a um serviço básico de distribuição de água potável e 263 milhões de pessoas demoravam cerca de 30 minutos para obter água de uma fonte de água potável.
Se por um lado temos um continente europeu onde a quase totalidade da população tem acesso a sistemas de distribuição de água potável, de proximidade, disponíveis em permanência e livres de contaminação, por outro, temos ainda 29% da população mundial com condições muito díspares, desde a inexistência de uma origem de água potável até essa origem de água potável estar localizada a mais de 30 minutos de distância.

Desde do século XIX muito se têm evoluído mas, em pleno século XXI, muito falta ainda fazer em matéria de saúde pública particularmente na que está relacionada com as condições de captação e distribuição de água.
Importa aqui reforçar as medidas relacionadas com a proteção e prevenção das origens da água quer seja subterrânea ou superficial. É pois muito mais fácil e barato prevenir a contaminação destas fontes de água que proceder à sua descontaminação.

Nestas como em tantas outras questões o povo é sábio e tem as palavras corretas para cada ocasião, “mais vale prevenir que remediar”.

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