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Dicionário, um verdadeiro amigo

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Dicionário, um verdadeiro amigo

Escreve quem sabe

2020-02-09 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

Em papel ou em formato digital, o dicionário é uma preciosa ferramenta de apoio para quem escreve. Numa época em que muitos de nós escrevemos usando ferramentas de processamento de texto, acresce a ajuda dos corretores ortográficos e verificadores linguísticos das ferramentas utilizadas (Word, Gmail, Facebook, etc).
Ao ler alguns textos de blogues, jornais e revistas, fico a pensar se a pressa é inimiga da perfeição ou se a preguiça é a mãe de todos os vícios.

Nos exemplos que aqui reproduzo, apresento sempre a fonte, não para depreciar os seus autores ou as publicações, mas para atestar a sua real existência. Por outro lado, serve para refletirmos sobre a importância da verificação dos textos, sobretudo quando vão ser lidos por um vasto público, que, muitas vezes, tem os órgãos de comunicação social como garante do bom português. Lacunas haverá sempre.
Apesar de frequentemente ler (e ouvir) “quadriplicar”, esta forma não existe, como aliás atesta o corretor ortográfico do processador de texto que estou a usar, sublinhando-a com um traço vermelho. Escreve-se “quadruplicar”. Pense em “quádruplo” ou em “quadrúpede” e vai ver que não se esquece. Erram, pois, o jornal O Jogo ao escrever “Maratona de Londres com segurança a quadriplicar”
(em https://www.ojogo.pt/modalidades/atletismo/noticias/maratona-de-londres-com-seguranca-a-quadriplicar-3173208.html, acedido em 30-01-2020) e o jornal Expresso ao publicar que “a procura de lítio para a construção de baterias de iões de lítio para a indústria automóvel vai quadriplicar ao longo dos próximos 10 anos.” (em https://expresso.pt/economia/economina_energia/portugal-a-beira-de-ficar-rico=f631254, acedido em 30-01-2020).

Perca grelhada é um prato de peixe de gosto muito, e nunca será uma perda de tempo tentar corrigir quem teima em dizer “perca de tempo”.
Uma perca é um peixe de água doce que nada tem a ver com o nome comum feminino “perda” derivado do verbo “perder”. No entanto, neste verbo existe a forma “perca” (1.ª pessoa do singular do presente do conjuntivo – “que eu nunca perca a esperança”; 3.ª pessoa do singular do presente do conjuntivo – “que ele nunca perca a esperança; imperativo – “não perca a esperança”).
Porém, no blogue do jornal Público, uma cronista escrevia “o acto eleitoral, como um disparate, uma perca de tempo (….)” (em http://blogues.publico.pt/comiciopublico/2015/09/30/a-abstencao-como-forma-de-que/, acedido em 30-01-2020); no Jornal de Negócios, outro opinava que “é uma perca de tempo discutir o Século XXI sem partir destes factos não-conjunturais.”
(em https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/quota_direitaquot_eacute_inculta, acedido em 30-01-2020).

Quem nunca ouviu o termo “geringonça”, cunhado pelo antigo presidente do CDS-PP, Paulo Portas, relativamente ao Governo sustentado pelo PS, BE e PCP?
Ora “geringonça” é sinónimo de “jigajoga” (comummente utilizada na aceção de engenhoca) e, provavelmente por isso, há quem escreva mal esta última palavra – “jingajoga”, talvez pela reminiscência do [n] da primeira.
Encontrei-a, por exemplo, numa dissertação de mestrado – “(…)a partir dessa jingajoga de fundição de superfícies (…) (em file:///C:/Users/docente/Downloads/137907%20(1).pdf, acedido em 30-01-2020) e num blogue – “(…) é preciso fazer alguma jingajoga a subir e descer pedras (….) (em https://daspalavras.blogs.sapo.pt/transcricao-do-meu-diario-de-viagem-501560, acedido em 30-01-2020).

Termino com uma ave muito mal tratada pelos portugueses: o peru. O pobre animal vem quase sempre carregado com um acento no [u] – *perú.
A página da Tupperware sugere uma receita de “rolo de Perú com Alheira” (em https://www.tupperware.pt/tupperblog/receitas/4742/RolodePerucomAlheira, acedido em 30-01-2020). O Pingo Doce anuncia “Peito De Perú Fatiado 150G a 1,79€ / un” (em https://www.pingodoce.pt/produtos/marca-propria-pingo-doce/pingo-doce/peito-de-peru-fatiado-150g/, acedido em 30-01-2020).
Nem o país sul-americano escapa. A Bola faz saber que “os futebolistas do Chile decidiram não jogar no amigável com o Perú” (em https://www.abola.pt/nnh/2019-11-15/chile-jogadores-da-selecao-recusam-jogar-amigavel-com-o-peru-devido-a-protestos-n/815011, acedido em 30-01-2020).
Vamos lá conhecer a regra: as palavras agudas terminadas em  [u]  precedido de consoante não levam acento gráfico (ex.: nu, caju, bambu, menu).

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