Correio do Minho

Braga,

Disfarces de uma luta ideológica

Antecedentes… (parte II)

Ideias Políticas

2016-10-11 às 06h00

Carlos Almeida

A propósito de um vídeo publicado pela Juventude Social Democrata (JSD), com o qual tive o desprazer de me cruzar, vim a confirmar a fragilidade do discurso de alguns agentes políticos. O referido vídeo, inserido numa campanha daquela estrutura juvenil, procura encenar um hipotético encontro entre dois jovens, sendo que um deles parece querer caricaturar um militante de esquerda, enquanto o outro caracteriza um rapaz da boa família conservadora.

Ao longo da curta conversa, o registo não varia. Às “ideias revolucionárias” do actual governo, o jovem neoliberal responde com um suposto bom senso e cândida moderação. As falas do jovem de esquerda, procurando ridicularizar todo o campo político, são básicas e, pior de tudo, distorcem a realidade.

Já se percebeu que, perante falta de legitimidade para apresentar um programa político alternativo ao desastre a que conduziu o país, a linha de actuação da direita não vai fugir muito disto. A estratégia é a de descredibilizar a actual solução política, desde logo em resultado da posição conjunta entre PS e PCP, insistindo numa campanha de medo - “fujam que vêm aí os comunistas” - e também de satirização. Dessa maneira, são recorrentes as tentativas dos responsáveis do PSD, e também do CDS, de associar actuais medidas do governo do PS aos tempos do PREC, acusando-o de estar a ser controlado por forças radicais. De igual modo somos confrontados, quase diariamente, com acusações de “sovietização” de um país dirigido por um “Comité Central” detentor de uma “perigosa agenda ideológica”.

Para além dos argumentos frágeis e primários revelados pela ala direita - bem ilustrados no argumento do vídeo -, o que mais me apraz é a forma como passam a estratégia entre eles, difundindo a mensagem, mesmo que em grande parte dos casos não saibam sequer o que eram os Sovietes, muito menos quais são os pressupostos ideológicos a que tanto se referem.
No vídeo da JSD isso é bastante perceptível. A campanha desenrola-se em torno de supostas medidas do governo no âmbito da fiscalidade. São dados três exemplos: um imposto sobre os combustíveis, um “novo imposto sobre a vista” e um outro “novo imposto sobre o património”. As explicações estão ao nível de um “tu não podes ter coisas e eu não, isso não é justo. Nós temos é de ficar os dois sem nada”. Tudo dito.

Não é que me apoquente, mas fica a confirmação de que a Universidade de Verão não está a produzir os melhores resultados.
Se aos jovens social-democratas até podemos dar um certo desconto, o mesmo não se pode dizer do Presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP). António Saraiva, em entrevista ao Diário de Notícias, publicada no fim-de-semana, disse não ser concebível o aumento do salário mínimo acima de 1% no próximo ano. Já no final da entrevista, deixou o apelo para que o governo deixe de se seguir pela “carga ideológica dos partidos de esquerda”, adiantando que na CIP “não estão nisto por ideologia”. Ai não? Por que estará, então? O que faz a CIP ao defender o congelamento de salários e a desregulação de horários? O que pretende quando avisa o governo para não se atrever a mexer em algumas cláusulas do código de trabalho?

Torna-se evidente que António Saraiva, querendo passar a ideia de que é politicamente isento, está, na verdade, carregado de motivações ideológicas. E a sua ideologia é aquela que defende a todo o custo os interesses do capital e acumulação de riqueza em quem detém os meios de produção. Nem que para isso tenha de inventar o fim da luta ideológica, para que a ideologia que vença seja a que se apresenta como não ideológica.

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