Correio do Minho

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Diversificar o comércio externo português: o casa do Brasil

O abandono e o adulto difícil

Ideias

2014-11-01 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Tradicionalmente as relações entre Portugal e Brasil têm sido muito mais históricas e afetivas do que económicas. Entretanto, registou-se uma viragem neste panorama desde a década de 1990 com o incremento significativo das relações económicas e comerciais entre os dois países. Exemplos disso mesmo são as mais de 660 empresas portuguesas que atuam no Brasil, o investimento direto português que se tem vindo a expandir e, por fim, o incremento do intercâmbio académico, nomeadamente nas áreas da Ciência e Tecnologia.
O Brasil na última década evidenciou uma tendência relevante para o progresso económico e social resultado sobretudo: da pujança do seu comércio externo, do alargamento do seu mercado interno, do aumento do rendimento e de uma mais equitativa distribuição desse rendimento.
Pese embora as dificuldades presentes sentidas na sociedade brasileira derivadas em grande medida do impacto retardado da crise internacional com quebra acentuada das exportações (em particular, nas chamadas “commodities”, as matérias primas em geral) e saídas volumosas de capitais do País, o Brasil continua a apresentar fortes potencialidades de ultrapassadas as dificuldades atuais de reatarem a trajetória anterior de crescimento económico e de maior justiça social.

Porém, para que isso aconteça é indispensável que haja vontade política do governo brasileiro e, temos aí a recente reeleição da Presidente Dilma Roussef, em avançar para reformas estruturais prioritárias, mormente, nas áreas da educação, saúde, justiça (combate a morosidade, corrupção e burocracia) e infraestrutura (estradas, portos, aeroportos, transportes, etc.). Não esquecendo que o Brasil possui abundantes recursos naturais, um sistema de proteção social em formação e uma população muito jovem. Com todos esses principais ingredientes, o Brasil, terá certamente as condições para a retoma da anterior trajetória de crescimento económico e de maior equidade social.
Para Portugal, o Brasil um país de dimensão continental e com um enorme mercado interno deverá ser visto cada vez mais como sendo um parceiro económico estratégico na indispensável diversificação do seu comércio externo.
É verdade que se tem vindo a assistir nos últimos anos a uma evolução francamente favorável nas relações económicas e comerciais entre Portugal e Brasil, contudo, muito ainda há ainda por fazer com vantagens mútuas, com destaque para as áreas do comércio, do investimento e da cooperação académica, da língua e cultura.
Vamos em seguimento especificar a situação atual e as potencialidades das relações comerciais entre os dois países.
Portugal como membro de pleno direito da União Europeia e integrante da zona Euro apresenta, como seria aliás de se esperar, uma forte concentração do seu comércio externo com os outros países comunitários. Qualquer coisa como 70% do comércio externo total português, porém, com a agravante de cerca de metade desse mesmo comércio se processar com três países, o que nos torna altamente dependente deles: Espanha, França e Alemanha.

Contudo, este facto não é obstáculo, antes pelo contrário, para que Portugal procure diversificar as suas relações económicas e comerciais com outros países e regiões do mundo (com papel relevante para os países de língua portuguesa, Brasil e PALOP). A diversificação do comércio externo fará com certeza com que nos tornemos menos vulneráveis ao advento de choques negativos europeus. Nesta linha de pensamento, as relações económicas e comerciais de Portugal com o Brasil revestem-se de papel estratégico, quer pelos laços históricos, quer pelo atual posicionamento mundial do mercado interno brasileiro.
Entre 2009 e 2013, o Brasil passou de 11º a 10º cliente de Portugal, representando as vendas de Portugal para este mercado um valor de 744,2 milhões de euros, 1,6% do total exportado em 2013 (0,9% em 2009). Apesar de valores ainda relativamente baixos nota-se, contudo, nos últimos anos um incremento relevante do comércio bilateral.
Nas exportações de bens e serviços, a estratégica fundamental a adotar pelas empresas portuguesas para penetrarem no mercado interno brasileiro passa sobretudo pelo estabelecimento de parcerias com agentes económicos locais, idóneos e fiáveis, que estejam em condições de legalmente, importar e colocar os produtos no mercado, e começar a construir a marca localmente…
É relevante sublinhar que os produtos que se encontrem legalmente no Brasil, não se deparam, em geral, com problemas de escoamento. A procura e os preços superiores praticados no Brasil são normalmente superiores aos que se encontram em Portugal. Esse maior nível de preços explica-se fundamentalmente (a) pelo crescimento económico do Brasil que se tem vindo a assistir, principalmente, na última década e, (b) pela desvalorização acentuada no presente da moeda real, fazendo subir a inflação importada. Daí resulta que do simples alimento dos supermercados, ao produto electrónico, à viatura, ou mesmo, à habitação, se pratiquem hoje nas maiores cidades brasileiras, preços bem mais elevados aos existentes em Portugal.
A ascensão da classe média no Brasil tem feito com que dispare, por exemplo, o consumo de azeite, vinhos e muitos outros produtos, que face ao aquecimento económico e a falta de oferta interna, tem de recorrer à importação.
O potencial de crescimento económico no Brasil incidirá certamente em maiores aumentos das importações de produtos e ao recurso de mais capitais e tecnologias estrangeiras, em particular, no domínio das obras públicas e habitação, sectores onde as empresas e os investidores portugueses não deverão deixar de aproveitar.
Assim, seja via exportação ou via investimento (direto) e com a esperada retoma da economia brasileira certamente surgirão novas e importantes oportunidades de negócios para Portugal. É necessário estar no mercado do Brasil e ter oferta em qualidade, quantidade e preço.
Terminaremos, focando a estrutura por grupo de produtos das exportações portuguesas para o Brasil (valores de 2013 e dados da AICEP): produtos agrícolas, máquinas e aparelhos e os metais comuns (que representaram no seu conjunto 63 % das vendas totais de Portugal para o Brasil).
Dos restantes grupos, destacam-se ainda as exportações de minerais e minérios (9,5%), de produtos alimentares (5,6%), de veículos e outro material de transporte (5,6%) e de combustíveis minerais (4,5%).

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