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Do Frágil, PapAçorda, Lux e Bico do Sapato ao balcão 2020 do COMPETE

Perdidos e achados

Do Frágil, PapAçorda, Lux e Bico do Sapato ao balcão 2020 do COMPETE

Ideias

2018-04-09 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Maria Augusta Babo, minha amiga, Professora de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa, acaba de ganhar um concurso, aberto pelo Centro Nacional de Cultura e pela revista Egoísta. Dei-lhe os parabéns pelo êxito alcançado. O concurso tinha como tema Vamos Mudar o Mundo. E Maria Augusta Babo propôs a criação de uma plataforma virtual, para a difusão, a adaptação e a replicação de microexperiências em comunidade. Intitulou-a O outro sou eu.

Maria Augusta Babo dialoga com a conhecida tese de Rimbaud, poeta francês do século XIX. Mas inverte-lhe o argumento. Rimbaud havia dito: Eu é um outro. Ou seja, eu não sou senhor do que se passa comigo. Apenas posso ser aquilo que pressinto no mundo e nos outros. Aquilo que percebo neles é que constitui a razão do meu pensamento, emoção e ação, o motivo do meu enternecimento, exasperação e paixão. Afinal, o que se passa comigo é a vida que acontece em mim, sendo que eu apenas posso escutá-la e ser testemunha dos seus apelos.

É verdade que numa relação eu posso encontrar o outro, que passa deste modo a existir em mim, como afirma Maria Augusta Babo. Esse é o caminho do enamoramento, e pode ser também o caminho da solidariedade, e mesmo da compaixão. Mas a relação com o outro não se esgota no encontro. Depois do encontro, segue-se muitas vezes, a anulação, a assimilação, e mesmo a dominação. Em termos rigorosos, o que podemos então dizer é que o outro nunca sou eu. E se o que está em causa é segregar, integrar e dominar o outro, do que se trata mesmo é de exercer sobre o outro uma violência.

É assim que eu penso as políticas científicas, decididas em Lisboa para o país - eu, que sou do norte, e não de Lisboa.

Tanto em termos antropológicos, como em termos geográficos, é hoje comum atribuirmos às periferias (aos lugares do outro) uma importância crucial, porque elas nos esclarecem sobre a natureza do centro - a natureza do que nele se pensa, imagina, sente e faz.

Ainda hoje, os trópicos são um modo de antropólogos e geógrafos falarem do centro para a periferia os trópicos são um lugar distante do centro, um lugar que nos é estranho, um lugar que afinal não é o nosso. Existem, deste modo, o Ocidente e a Europa, que são o nosso lugar. E existe a África e a América Latina, por exemplo, que são lugares do outro.

E da mesma maneira, existem os países centrais, os do norte, e os países periféricos, os do sul; assim como existem as epistemologias do norte, desenvolvido e dominador, e as epistemologias do sul, periférico e excluído. Em Portugal existe Lisboa e a sua centralidade; e também existe a província e a sua condição periférica. Mas além da relação que o centro estabelece com a periferia (uma relação de segregação e exclusão), existe também a relação que o centro estabelece consigo mesmo. Por exemplo, o centro vê-se como moderno, cosmopolita e glamoroso. Mas os lugares do outro são outra coisa - em bloco, são a província.

Vejamos.

Morreu Manuel Reis, empresário-rei da noite lisboeta. Toda a imprensa saiu à rua, compungida, e incensou os méritos deste empresário das noites vaporosas e glamorosas. Lendo-a e ouvindo-a, não haveria modernidade no país sem o Frágil, o PapAçorda, o Lux e a Bico do Sapato, que todavia são apenas lugares-fetiche da elite lisboeta, que aí celebra os privilégios da sua centralidade. Por não ter dado a Manuel Reis a Ordem da Liberdade, o semanário Sol, desolado, não escondeu a acrimónia e relegou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para a sua Sombra, com uma bola preta.

Morreu Stephen Hawking. E logo acorreu toda imprensa a dedicar-lhe infinitas loas. Fê-lo exaltando o genial cientista que ele foi? De um modo geral, não foi disso que se tratou. O que a imprensa exaltou, no semanário Expresso e por todo o lado, foi sobretudo o que da ciência resulta em espetáculo e em glamour, explorando a celebridade em que Hawking se havia transformado. A imprensa sublimou em Hawking a vida prodigiosa de um cientista, que viveu uma vida inteira com o cérebro aprisionado num destroço humano. E converteu-o num ícone pop, desatando a celebrá-lo no cinema, na música e na televisão, com presença em séries de desenhos animados, como Os Simpsons, com o blockbuster, A Teoria de Tudo, e com canções, como Keep Talking, da banda rock britânica, Pink Floyd, do álbum The Division Bell.

Mas alguma vez a imprensa se lembrou, por exemplo, de Jean Balandier e de Mario Perniola, dos maiores pensadores contemporâneos, que nos deixaram, Balandier em finais de 2016 e Perniola, agora, em janeiro passado? Nada disso ignoraram-nos olimpicamente. Não eram celebridades, e portanto não eram glamorosos, nem modernos, nem cosmopolitas. E, todavia, o antropólogo Balandier foi o primeiro a tratar da questão africana, em termos pós-coloniais. E Perniola analisou como ninguém a nova ordem tecnológica, e o sex-appeal dos objetos técnicos, que a acompanha.

Está em curso pela FCT a avaliação dos centros de investigação científica do país. Em 2015, o Governo mandou que fossem pagos pelo orçamento de Estado os centros de investigação de Lisboa. Os centros de província seriam pagos com verbas atribuídas pela Europa às empresas, para combater as assimetrias regionais. E aqui estão eles, todos os centros de investigação científica de província, sejam de Engenharia, Física e Biologia, sejam de Ciências Sociais e Humanas, a cumprir um destino de segunda, batendo à porta dos balcões 2020 do COMPETE, para fazer investigação periférica, que sirva o desenvolvimento regional, a inovação e o emprego.
Dou um exemplo. Parte da atividade de um centro de investigação passa, a 20% / 30%, pelo convite a investigadores, nacionais e estrangeiros, para trabalho de cooperação. É assim, aliás, que trabalham as unidades de investigação em Lisboa. Mas não pode ser esse o trabalho dos centros do norte, centro e sul do país. Empurrados pelo Governo para os balcões 2020 do COMPETE, apresentam-se como empresas e são tratados como tal, pelo impacto que se espera possam ter no combate às assimetrias regionais.

E temos assim a província, também na investigação, a viver em todo o seu esplendor às ordens de Lisboa. No fim da primeira semana de abril, ainda os centros de investigação da província batiam à porta dos Balcões 2020 do COMPETE a reclamar a aprovação do seu orçamento. Mas com a modernidade aberta pelo Frágil, PapAçorda, Lux e Bico do Sapato, os centros de investigação de Lisboa, bem ou mal avaliados, tanto faz, sempre puderam contar com um financiamento glamoroso, garantido a tempo e horas pelo orçamento de Estado, para fazer investigação central.

O outro sou eu? Como assim? Veja-se o caso do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS). Embora tenha sido o centro mais bem avaliado do país na sua área, também lhe calhou em sorte um destino sem glamour nenhum, continuando em abril a bater à porta do balcão 2020 do COMPETE, reclamando a aprovação do seu financiamento, para cumprir o seu destino periférico de investigação.

Está em curso, entretanto, uma avaliação dos centros de investigação do país pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Mas mantemos uma realidade ambígua: por um lado, existe Lisboa e os centros de Lisboa; e por outro lado, existe a província e os centros de província. Nos primeiros, vive-se a modernidade e o trabalho glamoroso. Nos segundos, rilha-se a côdea da periferia e do combate às assimetrias. Como assim, O outro sou eu?

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