Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Do nada...

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2015-07-14 às 06h00

Escritor

Montenegro

Do nada recomeçaram os insultos, as imprecações, as infâmias, as contradições, as afirmações traiçoeiras e mentirosas, o conflito procurado, desnecessário, incompreensível. Uma raiva hostil saída da profundeza do ser, gerada, quiçá, no maligno ancestral, deslocado do tempo e do espaço actual!
E sofria. Lena sofria porque não compreendia a atitude do marido. Sentia-se profundamente injustiçada, ultrajada, magoada com as suas palavras e atitudes. João já nem evitava os ataques ferozes diante de estranhos, fossem eles vizinhos, familiares ou amigos. Parecia dar-lhe um prazer mórbido magoá-la, rebaixá-la publicamente. E ela sofria pela ofensa e pela incompreensão da mesma.

Não obstante, o maior ultraje era o proferido no meio das imprecações:
- Amo-te muito! E vinham os beijos e os afagos fortemente repelidos por Lena!
Como pode alguém amar a quem ofende tão profunda, gratuita e constantemente? Quem é este ser com quem partilho vida, cama, mesa? Vivo com o inimigo? Perguntava-se atónita, perdida num mar bravo de sentimentos contraditórios. Por um lado o seu homem era um agressor, por outro assumia o papel de órfão desprotegido à procura de perdão, de carinho, de protecção e segurança.
Estaria a viver com um louco? Seria esquizofrénico, bipolar ou sofreria de outra qualquer maleita do foro psiquiátrico? Stress pós traumático, não, pois não tinha ida à guerra, safara-se a tempo indo “a salto” para a França. Mas que seria, então?

Outrora, no início de casados, vivera o mesmo drama. E tentou, pela via do diálogo esclarecer as dúvidas que a assolavam, tentando ajudá-lo a ultrapassar as dificuldades, … mas em vão.
Dialogar era atitude impraticável por João. Ou só falava ele, ou virava as costas à conversava quando era a vez de ela falar. Lena tentou dizer de outra forma: mimando as suas atitudes, replicando as suas imprecações em situações análogas em que a vítima seria ele, escrevendo-lhe, desenhando… até ignorando as injúrias e continuando a tratá-lo tão bem como se nada tivesse acontecido, sem se mostrar ofendida. Nada resultava.
Pensou, então, seriamente, divorciar-se. Os filhos eram pequenos e João tinha por eles uma adoração-rejeição incompreensível - tanto era o pai, como o irmão, desenvolvendo um papel relacional estranho: ou lhes dava tudo ou se enciumava pela atenção e cuidado que a mãe prestava aos filhos.

Porém, Lena, sabia que fortuna maior do marido estava nos filhos e mexer nessa segurança poderia ser acordar um animal primitivo, ainda mais feroz do que o que já estava acostumada a conhecer e a prever. Iniciar uma guerra maior com um monstro desconhecido, em que as crianças seriam, inevitavelmente, a moeda de troca, assustou-a e refreou-a na tomada de decisão.
Decidiu, então, aguardar no silêncio do seu coração, da sua mente, o momento certo para se libertar. Porém, uma certeza já tinha: o marido tinha um problema de excessos: era o tudo ou nada de qualquer coisa, fosse comida, bebida, amizades, ódios …

Percebeu também que o excesso de bebida alcoólica preconizava uma sessão de insulto, infâmia, conflito gratuito.
Um dia, seguido de muitos dias que se transformaram em décadas, João deixou de ingerir bebidas alcoólicas. As garrafas de valor ficaram a enfeitar estantes, o vinho ou a cerveja serviam-se, apenas, às visitas. A água ou o chá passaram a bebida de eleição em qualquer momento, em casa. João parece ter adivinhado os pensamentos mais recônditos de Lena querendo, com a nova atitude, evitar uma ruptura familiar.
Os filhos criaram-se, a vida prosseguiu serena, apenas salpicada da lama trazida pela crise que abalou todos com o refreio económico, os cortes salariais, o desemprego, a ausência de perspectivas futuras… E Lena reflectiu, e procurou as múltiplas garrafas arrumadas nas prateleiras, nos armários, nas garrafeiras descobrindo que já não existiam. As caixas estavam vazias…

E, sem entender donde surgiu o clique para parar ou reiniciar… Do nada,… Lena percebeu que o marido tinha recomeçado a beber…

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