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Do tempo e da mudança

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Do tempo e da mudança

Ideias

2019-12-23 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

O tempo cronológico apresenta-se-nos linear em círculos. Ano após ano vamos repetindo ciclos que nos trazem diferentes a um mesmo distinto ponto de partida-chegada. Uns ciclos renovam a esperança, outros regeneram a motivação, outros aprofundam a saudade do que não fomos. Todos são, necessariamente, momentos de reflexão e mudança.
Na nossa cultura comum, o tempo das festas assinala mais do que o solstício de inverno: celebra o virar de ano que, este ano, é simultaneamente o virar de uma década.
Vivemos uma década difícil marcada por uma crise económica global que se iniciou em 2008, nos Estados Unidos da América, com a bolha de especulação financeira e a falência do investimento imobiliário. A crise precipitou uma geração de jovens portugueses para a emigração, condenou outros tantos à injustiça do desemprego e atirou muitos para baixo do limiar da pobreza. Apesar das dificuldades, chegámos ao final da década coletivamente melhor do que quando a iniciámos.

A pobreza diminuiu, os indicadores globais de saúde melhoraram, a esperança média de vida aumentou, o desemprego reduziu-se muito significativamente, a economia do país recuperou, o turismo cresceu e podemos fazer da segurança (e da baixa criminalidade) uma bandeira de Portugal no mundo. A década foi, na sua globalidade, positiva e teve a particularidade de termos um número record de partidos envolvidos na estabilidade governativa: PS, PSD, BE, CDU e CDS-PP estiveram diretamente envolvidos na governabilidade do país o que, sendo inédito na nossa História, demonstra o vigor e a pluralidade da nossa democracia.
O facto de estarmos coletivamente melhor, não apaga as dificuldades do país e de muitas das suas pessoas. Somos pouco competitivos internacionalmente, temos enormes desigualdades na distribuição regional e social da riqueza, confrontamo-nos com importantes problemas na organização administrativa do país e continuamos a ter demasiadas pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza ou sem a estabilidade financeira desejável. Se queremos continuar a viver em paz connosco e com os outros, não podemos deixar ninguém para trás.

Para além dos problemas concretos e reais do país e das pessoas, somos hoje confrontados com um novo e perigoso desafio: o desencontro entre a realidade do mundo e a perceção coletiva que temos da realidade do mundo. Apesar de sermos um país mais seguro que nunca, a perceção de segurança reduz-se na exata medida em que aumentam as notícias sensacionalistas de crime; apesar de termos melhores indicadores de saúde do nunca, a perceção do estado individual de saúde reduz-se na exata proporção em que aumentam as partilhas alarmistas nas redes sociais sobre doenças; apesar de termos mais conhecimento científico e vivermos mais e melhor do que nunca, a crença em práticas sem qualquer fundamento lógico e científico aumenta na exata medida em que se espalha o medo e a desinformação.

É inquietante (e mesmo perturbador) que a década tenha confrontado a sociedade ocidental mais formada e informada de sempre com a perigosa ascensão de movimentos nacionalistas, populistas e anticientíficos. Sendo certo que as causas dessa ascensão são complexas e os métodos que a suportam são reconhecidamente fraudulentos, a verdade é que há entre nós demasiadas pessoas que reagem às dificuldades da vida em sociedade e às imperfeições da democracia propondo o isolamento, o ódio, a intolerância, a censura e a vingança como soluções. E fazem-no mesmo diante da evidência histórica de que qualquer uma dessas pretensas soluções nunca trouxeram nada de positivo às sociedades para além de novos problemas que perduram para as gerações vindouras.

Precisamos, mais do que nunca, de fomentar o diálogo, de construir pontes onde há muros políticos e religiosos, de proteger os mais desprotegidos, de valorizar a diferença que nos torna necessariamente mais fortes e de estimular a formação e a educação como remédios contra a doença da ignorância e da desinformação.
Precisamos, mais do que nunca, de fazer balanços realistas de cada ciclo, alinhando as nossas expectativas pessoais com o contexto em que vivemos. 
Que 2020 inaugure uma década capaz de  renovar a esperança na nossa existência coletiva, regenerar a motivação para os desafios do futuro e transformar a saudade em algo reparador e positivo.

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