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Doentes mentais por encomenda

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Doentes mentais por encomenda

Ideias

2023-12-06 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Na antiga URSS, os dissidentes, esses não patriotas, essa escumilha não comprometida de alma e coração com o Partido e com o Futuro Radioso da Humanidade, caíam facilmente no radar da Psiquiatria. Caíam, que é como quem diz – iam de Volga preto, ou de ambulância discreta, com sirene calada, para não provocar stresse sonoro ao abalado dos nervos. Outros, de quem fosse indigno suspeitar que algum transtorno os levasse a defender o indefensável, faziam viagens mais longas, eventualmente mais tormentosas, segundo guião tomado intacto da época czarista.
Quarenta anos depois, no que à minha experiência respeita, assisto a um ressurgimento da «doença mental» de inspiração ideológica, e ocorrem os factos aqui, em França, porque sempre que algum sanguinário despacha vítima anónima em nome do grande deus, logo se levanta o coro dos hospitais de atestado em punho – é doente, dizem, é psicótico, é psicopata, é esquizofrénico. E assim vai, com o facínora que no último sábado assassinou um pacífico turista alemão, à vista da Torre Eiffel. Para vingar as perseguições a que são sujeitos os muçulmanos mundo fora, explicou o celerado.
Valha o que valha, arrisco dizer que seja tão varrido das ideias e tão incapaz de autocontrolo como eu. Matou, porque desejou matar, não porque um génio malfazejo o tivesse tomado de assalto e conduzido passos e mãos. Matou, para se heroicizar. Matou, para se inscre- ver numa linhagem, porque bem lhe foram identificados contactos com o iluminado piedoso que degolou o professor Paty, com o cidadão exemplar que perseguiu e assassinou um casal de polícias em casa, com o crente irrepreensível que levou a morte ao altar em que celebrava o Padre Hamel.
Tinha este combatente da fé legítima feito prisão, por planificação de atentado para La Defense. De todo o seu espírito reconhecera os nefastos da radi- calização islâmica. Veja-se só: até dera em comer carne de porco e em beber cerveja. Algo vinha correndo mal nos últimos dias, a mãe até solicitara das autoridades intervenção médica, que um juiz indeferiu, porque ninguém pode impor tratamentos contra a vontade expressa do primeiro interessado. Real ou imaginária, resta de tudo isto que a doença mental é uma capa de invisibilidade de alta-costura, um fim de linha no passa-culpas, porque cada elo da cadeia tenha estado ao seu melhor. E o jovem alemão? Cinicamente, podia ter-lhe caído um piano de cauda em cima, numa avenida de Berlim.
Retenho a curiosidade, entretanto, que democracias se defendam de incómodos com argumento batido por regimes totalitários, e que grupos da esquerda wok, e engajada na defesa do chique islâmico, clareiem gargantas com águas da mesma bica psicológico-psiquiátrica.
Retenho outras curiosidades, por exemplo, que sob protecção policial viva de há meses o imã Hassen Chalghoumi, tão-só porque defenda um Islão humanista, não um Islão sectário, porque de toda a sua fé se levante contra aqueles que com sangue lavram a impiedade que outros promovem e aplaudem.
Collin, se chamava o germano-filipino, que um franco-iraniano levou à morte, em desagravo das perseguições aos muçulmanos. Onde? Na Palestina? No Turquestão chinês? Na Tailândia ou na Birmânia? Na Índia? E quem, entre os progressistas de bom credo, faz novenas pelos muçulmanos que perseguem outros muçulmanos?
Começo a pensar que em psiquiátrica negação da realidade estejam aqueles que de olhos vendados saltam páginas da História, porque se cego é quem ataca de faca e martelo, cego quer ser, quem para tal encon-tra justificação tangível. Ah! E a imbecilidade também é um marcador mental.

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