Correio do Minho

Braga, terça-feira

Dois corações

“Novo tabaco” mata 600 mil crianças por ano

Conta o Leitor

2015-08-04 às 06h00

Escritor

Bernardina Lopes

O meu nome é Cassandra e nasci num gesto de amor imenso, para ser irmã, amiga e companheira de uma menina. Ela é uma menina boneca, eu sou uma boneca menina.
Estavamos numa tarde quente e abafada de julho e mesmo debaixo do carvalho grande, generoso na sua ramagem e na sombra que nos dava, sentia-se o ar parado, repleto de silêncios, naquele recanto da floresta. A avó Rosa foi a um velho baú buscar lembranças e segredos do seu passado. Não remexeu muito que o passado é para ficar onde está. Trouxe lenços coloridos, meias de vidro, uma saia rodada, cheia de ramagens e um colar azul intenso como o céu, azul profundo como o mar, que apesar do tempo não perdera o seu brilho, ou eram os olhos de Rosa que voltaram ao passado e aí ficaram parados por instantes, enquanto uma menina frágil e doce a observava com os seus olhos imensos, cheios de sombra e luz.
E então, com todos aqueles tesouros do passado, a avó, com as suas mãos enrugadas e escuras começou a mexer e a remexer, primeiro num frenesim que lhe deu um leve rubor à face e um misterioso brilho ao olhar… Depois recuperou a calma e lentamente começou a fazer- me... Com mãos trémulas e a vista já enevoada, que a sua vida já era longa, foi -me fazendo, ajeitando aqui, atando ali, apertando, moldando, ia rasgando aquelas rendas e lenços coloridos como quem rasga o tempo. E assim fui feita de bocadinhos do passado, de recordações, de memórias de uma vida. Toda feita de tecido, de rendinhas, um chapelinho com uma fita de seda de onde saíam duas tranças, vestido rodado e pintalgado de sete cores, carinha sorridente, rosada de moçoila feliz, pernas magras e bem atadas, protegidas com tiras de tecido e nos pequenos pés arredondados, sem dedos, uns sapatinhos aveludados com um botãozinho tão pequenino que quase não se dava por ele. E assim nasci sob o olhar atento e fascinado da pequena Maria.
Ali estava Maria, sentada a olhar encantada para as mãos da avó e para aquela menina acabadinha de fazer. Feita de lembranças do passado, de cores, de retalhos de vida, da vida da avó. Sim, que a avó agora tão velha, rosto sem idade, de quem viu tantos sois e tantas luas que lhe perdeu a conta, já foi uma jovem bela, sorridente, feliz, moça do campo, entre o milheiral, o centeio maduro e os cachos de uvas doces como mel, tão procurados pelas abelhas atarefadas. Colhia as espigas douradas, flores, fruta, tudo numa abada de cores, aromas e sabores. Enfeitava o cabelo com uma flor garrida e perfumada e com a mão morena bebia da água fresca que enchia a poça para regar o milho e tudo que a terra negra e fértil oferecia. Olhou-se no reflexo da água e sorriu e junto do seu, viu outro rosto a sorrir-lhe e a ondular suavemente na água serena quase parada da poça.
Quando levantou os seus olhos esverdeados com centelhas de luz, encontrou os dele tão azuis e profundos como o mar e Rosa de nome e rosa flor do campo, bebeu nessas outras ondas, nesse fascínio que chamava por ela e onde ela mergulhou e se perdeu.
- Pega, minha Rosa meu amor, este colar que tem a cor dos teus olhos e dos meus. - Colocou-lho no pescoço e prendeu-o com um fecho com duas metades de dois corações.
Rosa acariciou conta a conta daquele colar, sentiu as duas metades dos corações, afinal não eram dois corações num só, era apenas o seu coração partido. Passou tanto tempo, mas um coração partido é sempre um coração partido. Lentamente desfez o colar pegou em duas contas e fez os olhos de Cassandra.
Aqueles olhos tão azuis, profundos intensos onde se escondiam segredos, onde brilhavam promessas e sonhos... Azuis, azuis como o céu, como o mar longínquo, esse mar que traz memórias, berço da vida e destino que nos chama num apelo que mata e dá vida e volta a matar e a dar vida, até não aguentarmos mais e nos deixarmos levar pelas ondas, pela maré e não restar mais nada que o abismo onde nos afundamos. Agora aqueles olhos, resgatados ao passado, feitos de saudade, encheram-se de brilho no rosto de Cassandra e dariam luz para iluminar os sonhos e a vida de Maria. Estava feita, feita de pedacinhos, pedacinhos de uma vida. Bela Cassandra, de olhos azuis, cheia de memórias, vestida de sonhos e de amor para dar. Colocou - a nos braços de Maria, a menina da sua vida, do seu coração, que lhe sarou as feridas do passado e a solidão do presente.
A menina abraçou a boneca, aconchegou - a no seu peito e ouviram - se dois corações a bater ao mesmo tempo. Isto foi o que sentiu Maria e foi o que sentiu Cassandra.
- Foram feitas uma para a outra ! - pensou a avó. Todas as meninas precisam de uma boneca e todas as bonecas precisam de uma menina.
Durante muitos anos a avó viveu ali sozinha. Retirou- se do mundo, afastou-se das pessoas e foi para aquele cantinho na floresta, construiu a sua casa, pedra a pedra, tronco a tronco, viu o carvalho fazer-se árvore, ficar forte e ramalhudo e ali, longe de tudo, longe do mundo, longe das casas da aldeia criou o seu canto, o seu refúgio, recompôs os bocadinhos do seu coração, ou o que restava dele, encontrou-se a si própria e acalmou as angústias da sua alma ferida.
Conhecia de cor aquele lugar, o monte, os bichos, as ervas bravas, os arbustos, a lagoa, o medronheiro de frutos vermelhos e carnudos e até o rio grande que tinha numa das suas margens a aldeia fresca e airosa de casas caiadas de branco e telhados com bocas pintadas de vermelho carmim. O povo da aldeia sabia da sua existência, chamavam- lhe velha louca, que tinha perdido o juízo por um amor, que fazia feitiçarias, mau olhado e outras coisa mais e por isto e por aquilo ninguém se aproximava daquele lado da floresta não fosse verdade tudo o que se dizia. Ela não se importava, vestia toda de negro, cabelos brancos, compridos, corpo magro, curvado, ao peso da idade, enrugada e velha, sim muito velha. Ali tinha sarado as suas feridas e encontrado paz, longe das pessoas e perto dos bichos e da beleza grandiosa da natureza.
Pensava a velha Rosa que a sua vida estava escrita, quase terminada e aquela mágoa que às vezes ainda doía no seu peito era agora fácil de suportar e um dia, por certo muito em breve, encontraria paz, sem sobressaltos, sem surpresas, ali onde vivia, na quietude daquele pedacinho de céu.
À noite, gostava de caminhar, aproximar-se do rio grande, subir ao cume da montanha onde o céu ficava mais perto e nas noites plenas de luar banhava - se na lagoa de águas límpidas como cristal. Nesses devaneios e passeios noturnos encontrava paz para o corpo e para a alma, iluminava-se da luz das estrelas que salpicavam o céu e do luar em noites de lua cheia. Num desses passeios, noite fora banhada pela luz da lua, viu uma outra luz, um clarão de fogo e adivinhou a tragédia. Era a barraca onde vivia a rapariga e a pequena criança, tão pequena como o chão e que ela deixava sozinha sempre que saía à noite e só regressava madrugada fora. Mas agora não havia tempo a perder, entrou pelas chamas que tomavam conta da barraca e com as suas mãos arrancou ao fogo devorador a criança que dormia enrolada em mantas dentro de uma banheira de plástico que lhe servia de cama.
Cuidou dela com ervas e plantas da natureza, envolveu-a, acarinhou-a refrescou- a, embalou- a nos seus braços dias e dias, noites e noites… Cantava-lhe, rezava, murmurava, sussurrava histórias, uma e outra vez, uma e outra vez, uma e outra vez…
- Ouve Maria, o meu coração a chamar por ti, fica comigo, ouve o meu coração junto ao teu. Dois corações são mais fortes.
E essa voz lentamente entrou no pequeno e frágil coração da menina fazendo- a viver. Abriu os olhos reconheceu aquele colo, aquela voz, estendeu a sua mãozinha, alisou as rugas de Rosa, sorriu…
Ninguém a veio procurar, nem sequer a rapariga. Por certo ninguém sabia que havia ali uma menina e ninguém se importou que a barraca ardesse. Afinal destoava naquela floresta cheia de verdura e encanto.
Rosa, agora avó de coração, carregou-a no colo enquanto as queimaduras cicatrizavam, enrolou ervas e panos nos pés da menina para ela andar com os seus pés redondinhos e ela foi recuperando lentamente, mas nunca falou, nem uma palavra se lhe ouviu, o fogo tinha-lhe levado mais que as suas pequenas pernas. Olhava tudo com os seus olhos enormes e agora abraçava Cassandra e nunca mais a havia de deixar.
Uma noite a avó partiu e não voltou mais. Maria esperou, esperou, muito abraçada a Cassandra.
- Não tenhas medo! - tinha-lhe dito a avó - Nunca tenhas medo eu estarei sempre contigo mesmo que não me vejas.
Agora era Maria que contava histórias e cantigas de embalar a Cassandra e Cassandra tudo ouvia.
- Não tenhas medo Cassandra.
- Somos irmãs, somos amigas, temos as pernas parecidas e os pés redondinhos.
- Vamos procurar a avó Rosa.
- Ela deve estar a colher medronhos ou a banhar-se na lagoa.
E na infinita melancolia daquele fim de tarde, naquele pedacinho de céu alguém caminha, uma menina boneca e uma boneca menina...

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