Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Dona Gertrudes

O que nos distingue

Conta o Leitor

2016-07-06 às 06h00

Escritor

Pontes Oliveira

Omini autocarro parou no centro da avenida, logo a seguir à passadeira de peões, de frente para o moderno mas arquitetonicamente desintegrado edifício do Centro de Animação Turística. Nas partes laterais do veículo podia ler-se, em letras garrafais: Centro Social de… (localidade do centro do país). A porta automática da frente, do lado oposto do motorista, abriu-se lenta e ruidosamente. No interior alguns dos passageiros, todos do sexo feminino com exceção do motorista, levantaram-se apressadamente dos seus lugares a cochichar. Sentadas no banco da frente do lado oposto ao motorista, uma enfermeira e uma ajudante de lar, responsáveis pela guarda das 17 idosas utentes da instituição durante a excursão, ao verem alguma confusão após a paragem do mini autocarro, levantaram-se de imediato para pedir calma, para se sentarem e ouvirem as suas instruções.
Mais atrevida, uma das idosas reclamou:
“Ó filhas, mas eu preciso de fazer um chi chi!”
“Já vai, já vai sair, dona Gertrudes,” respondeu a enfermeira.
Entretanto, o motorista, corpulento, desceu a escada da viatura e saiu. Sem nenhum pudor desabotoou os botões da camisa branca e, violando as regras das boas maneiras, levantou os braços e espreguiçou-se longamente. De seguida encostou-se à parede do edifício, acondicionou os óculos de sol na face, retirou um maço de tabaco do bolso da camisa, acendeu um cigarro e começou a fumar com sofreguidão. Fora do mini autocarro, junto da escada, a ajudante de lar ajudava a sair as passageiras, enquanto a enfermeira ajudava no interior. Dez minutos depois o mini autocarro ficava vazio. Duas passageiras deslocavam-se com a ajuda de muletas. Algumas logo que saíram sentaram--se nos degraus das escadas da entrada do edifício, enquanto outras cochichavam entre si.
Sentindo as necessidades fisiológicas de algumas das idosas, solícito o motorista exclamou:
“Há ali um café daquele lado da rua!”. Apressadamente, algumas, sem dar atenção às palavras da enfermeira que dava algumas instruções, e sem respeitar as regras dos peões, atravessaram a rua e dirigiram-se para o café.
Uma das idosas, talvez a mais vetusta do grupo, mas também aquela em que os danos da idade avançada mais se faziam refletiam, vagarosamente balouçava o desengonçado corpo apoiada em duas canadianas. A enfermeira, zelosa, caminhava ao seu lado enquanto atravessava a rua.
“Vá, vamos lá dona Gertrudes…com calma, com calma”, animava-a.
“Tenho de ir à casa de banho, senão…”
“Já vai, já vai.”
Ao chegar ao passeio do outro lado da rua, sem parcimónia dona Gertrudes soltou um longo traque cavernoso que se ouviu a metros de distância.
“Então, dona Gertrudes, isso faz-se?”- exclamou a enfermeira em tom de censura.
“Perdão! Desculpe, senhora enfermeira!... Mas eu tenho de ir rapidamente à casa de banho”.
Meia hora mais tarde todas as idosas estavam dentro do café. Depois de satisfeitas as necessidades fisiológicas, sentaram-se e a maioria delas pediu chá e bolachas. Muitas delas colocaram em cima das mesas a “farmácia ambulante”, uma caixinha minúscula onde guardavam dezenas de espécies de drageias para combater enfermidades próprias da idade.
Dona Gertrudes pediu a um dos empregados do café para mudar de canal da televisão.
“Ó filho, não te importas de mudar a televisão para a 4?”
O empregado ficou indeciso.
“Podes mudar, podes mudar, o jogo está mesmo a acabar e o Benfica já ganha por três a zero” - autorizou um dos clientes que se encontrava a ver o jogo.
“O que é que quer ver na 4, dona Gertrudes?” - perguntou a enfermeira.
“Quero ver se ganho o jackpot do euro milhões” - respondeu a idosa.
“Meu Deus, cem milhões! Para que queria tanto dinheiro, dona Gertrudes?”
“Ora essa, filha! O dinheiro nunca é muito”.
“Com a sua idade, não sei para que queria tanto dinheiro…”
“Pede, pede a Deus que me saia a mim e logo saberás”.
“Do que a dona Gertrudes precisava agora era de retroceder uns cinquenta ou sessenta anos, ser independente e ter saúde. Isso era o que devia pedir a Deus…”
“Ó filha, tu sabes como eu sei que isso é completamente impossível. Como diz o povo, quem o deu já não tem para o dar. Na minha idade e rebentada como eu estou por dentro e por fora, resta-me aguardar serenamente…”.
“Não seja tão pessimista, dona Gertrudes!”
“Pessimista, eu? Oh, como eu tenho inveja desse teu pueril otimismo! Ainda tens muito que aprender, filha…Vais ver que à medida que fores envelhecendo esse teu otimismo vai refreando… Aliás, eu penso que Deus não mexe uma palha para contrariar o natural evoluir da Natureza. Se Deus quisesse intervir tinha tanto onde o fazer, minha querida. Lembra-te dos crimes mais hediondos que o Homem, um ser dito racional que Ele terá criado à sua imagem e semelhança, leva a efeito diariamente contra a Humanidade. Muitos deles praticados em nome de Deus por fanáticos intérpretes da religião.
Nascer, viver, sofrer e morrer fazem parte da biologia. Eu já vivi 88 anos e por isso considero-me uma privilegiada. Há tantos, tantos que morrem na chamada flor da idade. Mesmo que tu tenhas razão, com a minha idade achas que tenho o direito de pedir a Deus alguma coisa para mim? Não, não tenho. Se desejo que me saia o euro milhões é para poder dar aos outros. Por exemplo, ajudar a criar condições para os velhos, os pobres e os doentes mandar construir lares de terceira idade por todo o país.
No café fez-se silêncio. A televisão transmitiu, em direto, o sorteio do euro milhões.
Calada, atenta, com o boletim de apostas na mão, dona Gertrudes assistia. A meio do sorteio, pela expressão facial já dava para entender que os números sorteados não lhe agradavam.
E não foi daquela vez que dona Gertrudes ganhou o tão desejado prémio.
Nem daquela nem de nenhuma outra vez.
Quinze dias mais tarde terá ganho a “PAZ ETERNA”. Naturalmente, venceu a velhice, as dores, as canadianas e os medicamentos.
A Natureza, por sua vez, contínua a evoluir…

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