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Dos augúrios, das promessas e da despaciência na cidade augusta

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Dos augúrios, das promessas e da despaciência na cidade augusta

Ideias

2019-01-02 às 06h00

José Hermínio Machado José Hermínio Machado

Na minha infância, os vaticínios do velho Aires, conhecido pelo Ti Gagatas, sobre os dias futuros eram esperados com ansiedade e tomados como cautelas de vida. Contava-se que o homem ia para a serra durante uns dias e ali ficava a auscultar a natureza, depois regressava e tinha a sabedoria oracular da previsão do tempo para os doze meses do ano, vaticinava conjunturas climatéricas que deveriam ser tomadas à letra por quem quisesse, ou dentro das probabilidades por quem assim cuidasse que resultavam. Dizia-se que ele acertava na previsão das têmporas, ou seja, na antevisão dos momentos preferenciais para as semeaduras de terras e para as colheitas, para os cuidados a ter com isto e com aquilo. Vaticinar e adivinhar o tempo futuro continua a ser trabalho de previsão imprescindível, para uns alimentado a rigor de ciências várias, para outro alimentado a jogos de cartas, lançamento de dados, observação misteriosa de pormenores de vida. As sabedorias da previsão, do augúrio, do vaticínio, da adivinhação emergem nos dias de hoje com novas configurações nos meios de comunicação. Todos nós nos tornámos especialistas na previsão, mesmo que isto signifique um cada vez maior grau de consciência de erro. Também as promessas de novo ano, os votos de futuro, que deveriam assentar nas experiências passadas e nas recomendações de bom senso, tomam ares de adivinhação garantida. As tradições de auscultar e prever, de vaticinar e garantir, emergiram nas cidades e assumiram lugar de conforto nos discursos políticos da gestão pública. Não faltam as análises de previsão nem minguam mesmo nada as promessas de concretizações adequadas. Está no sangue das cidades ver e prever, observar e esperar, desejar e prometer. Tornemo-nos oraculares ou áugures e subamos a serra, ali nos quedemos a ver os sinais de pássaros e de árvores, de casas e de gentes. Olhemos a cidade e vejamos quantas casas em cada rua estão à espera de futuro, algumas há décadas, outras desde que ruíram ou ficaram sem o préstimo que tinham. O mesmo pensemos para as vias de trânsito ou para os espaços verdes, ou para as gentes que circulam. Quanta adivinhação de futuro não está já determinada em projectos de gestão pública, naquela antevisão de sabermos que serviços eliminar ou despontar, que empregos fomentar ou controlar, que regras impor ou aliviar. Olhemos e calculemos os graus de paciência ou de despaciência que vão ser necessários para acalentar esperanças ou aliviar frustrações. Vale a pena recordar o sábio Francisco Sanches desta cidade augusta e a sua obra poética de ataque às previsões que se faziam no tempo sobre o movimento dos astros. E todavia a vida vai seguir, as horas de trabalho vão requerer ocupações certas, as obras hão-de fazer-se consoante os dinheiros obtidos, as promessas hão-de renovar-se e os detentores das verdades sobre as têmporas hão-de fazer-se ouvir como premonitores de caminhos a seguir. Quem quiser ocupar-se de tradições ou modos crónicos de prever a vida verá que elas andam por aí e são continuamente reinterpretadas. Foi o caso da árvore de Natal ter sido noticiada como objecto da primeira proibição pública nesta cidade ou nestes domínios brácaros, tendo sido trazida a lume a leitura da obra de S. Martinho de Dume sobre a correcção dos rústicos, naquele tempo de cristianização de povos invasores destes territórios, no século VI da nossa era. Disse o jornal que o bispo dumiense causticou severamente as práticas que os rústicos tinham de prestar culto a árvores dentro de suas casas, para exercício de crenças ou rituais ditos pagãos, o que decorre de muita verdade sobre os sermões do bispo, mas nada quer dizer sobre se tais árvores já tinham então o sentido ou significado que atribuímos às árvores de Natal. Mas, que fosse, é só para tomarmos sentido como hoje ainda andamos envolvidos com estes saberes ou estes discursos sobre a previsão ou cuidado a ter com nossos dias futuros e sobre a natureza dos objectos a que ganhamos afeição e tomamos como ícones de nosso tempo.

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