Correio do Minho

Braga, sábado

Dos primeiros dias de escola ao gabinete do psicólogo

Mercado de Trabalho em Portugal, uma visão crítica

Escreve quem sabe

2013-11-05 às 06h00

Cristina Palhares

Na última crónica falava-se da expetativa de uma criança com um desenvolvimento precoce nos seus primeiros dias de aulas. Aqui ficam as últimas linhas da crónica anterior e a continuação da narrativa, integrando sempre o suporte que a literatura científica nos oferece.

“Afinal nestes meus primeiros dias pouco aprendi. Foram uma seca... Tudo o que eu escrevia e lia não tinha importância. Tive que voltar a aprender, como se já não soubesse nada.” (Um número substancial de crianças sobredotadas iniciam a escola com altas expetativas e grande entusiasmo,como é o caso da maior parte das crianças, mas rapidamente se sentem frustradas e aborrecidas. (Alencar, 2001)). Mas ia sempre para a escola na esperança de um dia aprender coisas novas. Aprendi algumas, poucas, e ... tal como era meu hábito, fazia tudo rápido e fugia para as outras salas. (O currículo regular não apresenta uma adequação às possibilidades de aprendizagem da criança sobredotada, devendo falar-se de complexidade ou profundidade compreendendo uma maior quantidade de conhecimentos e um aprofundamento temático maior, como resposta à sua curiosidade intelectual. (Alonso, 1992)).

Em casa comecei a dar algumas preocupações aos meus pais... Já nem me lembrava... dores de barriga, enxaquecas que eu sabia dizer tão bem, insónias, e daí a fazer um exame geral médico foi um passo. Análises ao sangue, ecografias, enfim, infelizmente estava tudo bem. Mas eu devia ter alguma coisa... Não descobriram pela certa! Ah, mas na escola era igual. Eu adorava ir tomar chá para a cozinha.

Pelo menos o tempo passava mais depressa. E conversava, conversava, ... com a cozinheira, claro. Entretanto chegou o final do 1º ano e no início do 2º a directora e a minha professora resolveram chamar os meus pais. Propuseram que eu passasse para o 3º pois começava a portar-me muito mal. Não parava quieta, só queria fazer contas difíceis, lia com muita velocidade, enfim... afinal já estava ao nível dos meninos que estavam no 3º ano. Pois, pudera.

Quando eu me raspava para a sala deles, o que a professora estava a fazer no quadro era facílimo para mim. Eu respondia e fugia... A professora ria mas os meninos não achavam muita piada. E foi aqui que comecei a conhecer os psicólogos. Aqueles gabinetes eram mesmo bonitos... Faziam-me perguntas difíceis, jogos engraçados, depois tinha que sair da sala para eles conversarem com os meus pais. Ainda não percebia bem... Sempre ouvi dizer que era muito feio falar dos outros nas suas costas, mas pronto, tinha que ser... Já estava habituada às reuniões com os professores...

E passei a ir aos sábados ter com novos amigos, que eram todos um bocadinho mal comportados, irrequietos, faladores, como eu. (Não existem provas empíricas de qual o tipo de programa que melhor responde às necessidades do aluno sobredotado. O enriquecimento e a extensão do currículum regular é útil para muitas crianças e muitas vezes ajuda as sobredotadas a manterem o interesse nas matérias escolares. Mas se o enriquecimento exclui a possibilidade de aceleração, a criança excecionalmente inteligente pode começar a manifestar tédio, perda de motivação e, por último, começar a apresentar resultados negativos, ou pior, abandono escolar. Mas, no modelo interacionista, a interacção com o igual é considerada um pré-requisito básico para o desenvolvimento humano.

Estas crianças necessitam de interagir com pessoas semelhantes em termos de desenvolvimento e intelectualidade. Trata-se de uma necessidade básica para o desenvolvimento de todo o seu potencial (Mönks, 1997)). Também havia meninos que quase não falavam... Coitados! Mas eu gostava de estar com eles, tal como com os meninos deficientes da minha escola. Fazia-lhes muita companhia, e eles a mim... O 3º e 4º ano foram muito difíceis. Estava sempre de castigo, nem sei bem porquê... Mal falava, logo de castigo... Até vinha com a minha “mobília” para o corredor... A sério... A professora mandava-me para o corredor com a minha secretária e cadeira. E foi aí que tive que voltar ao psicólogo...

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