Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Durante uma ressonância magnética...

O Estado da União

Conta o Leitor

2016-07-23 às 06h00

Escritor

GRAÇA SANTOS

Fui fazer uma ressonância magnética. Na sala de espera do hospital chamaram-me e indicaram-me que respondesse a um questionário com as formalidades obrigatórias, para verificarem a minha apetência para fazer o dito exame. E encravei na pergunta:
“Sofre de claustrofobia”?

Um bocadinho, pensei. Não gosto de me sentir muito tempo em espaços fechados, apertada nos bancos das igrejas, nem no meio de multidões, oh!, nem no meio da água!
- Ah! Como me sinto claustrofóbica quando estou no mar, rodeada de água sem ver terra! Como me afligem as janelinhas redondas dos navios quando os vejo, só em imagem, só de pensar que aquelas janelas não são de abrir! E nos novos gabinetes públicos, modernos, com ar condicionado, mas sem janelas de abrir e sem luz natural! E nos quartos dos hospitais! Ai que dor, que sufoco quando penso nisso!
Será que respondo sim ou não à pergunta?
Faço ou não o exame?
Mas preciso de fazer o exame... controla a tua mete, menina!
E respondo, NÃO à pergunta!

Avanço, então, para a sala do exame. Pedem-me que me dispa e vista touca, sapatos e túnica, todos a condizer na cor e no material. Depois segui para a máquina que executa as ressonâncias, tal qual a cápsula de um vaivém espacial. Mandaram-me deitar e enfiaram-me dentro dela. Aí senti-me múmia egípcia a entrar no sarcófago e a ideia de morte associada aos meus laivos de claustrofobia quase comprometeram o exame, se eu não desse largas à minha imaginação e me distraísse com outras coisas mais bonitas e simpáticas. Pus-me logo a pensar no que gosto de fazer e de sentir: natureza, prados verdes, montanhas, flores, praias, mar, espaço, cor, liberdade e poesia…

E lá me aguentei. Ouvi as instruções de permanecer completamente imóvel por cerca de meia hora. Aconcheguei-me e imobilizei-me o melhor que pude - só mexia o pensamento. Ofereceram-me auscultadores para ouvir música e disfarçar o barulho incómodo da máquina, mas a posição em que tinha de estar impedia que os auscultadores se segurassem convenientemente, pelo que optei por colocar, apenas, tampões nos ouvidos. Por isso só ouvia a máquina e os meus pensamentos.

Pensei então:
“Que farei durante meia hora, sem me mexer e para me abstrair do ruído da máquina e controlar o pânico provocado pela minha claustrofobia?!”
Respondeu-me o pensamento:
”Reza o terço”.
E assim fiz. Rezei o terço com toda a calma e todos os salamaleques e ejaculatórias que tinha de memória. Depois, depois, só o barulho insuportável da máquina!
- Estou presa a este ruído, apetece-me soltar e sair daqui para fora, mas não, não, menina, tens de ser obediente e portares- -te bem. Não comprometas o exame que deve estar quase a acabar. Pensa, pensa lá o que podes ainda fazer. Não, não podes “contar carneiros” porque este barulho não te deixa dormir! Pensa lá outra coisa. E pensei que ir contra a corrente, tocar a campainha de alarme e desistir da ressonância não seria a melhor solução. O melhor seria seguir a favor da corrente, isto é: ir com a máquina!

E assim fiz. Comecei a dar significado aos ruídos. Cada barulho tinha uma imagem:
- TAC-TAC-TAC correspondia ao disparo de uma metralhadora; PU... PU… PU… ao apito de um Cacilheiro espraiado no Tejo; Pi… Pi…. Pi…. ao apito de um comboio a vapor a entrar na estação, …. E o tempo foi correndo, alternando entre metralhadoras, comboios e cacilheiros. Até que a voz da técnica interrompeu o meu pensamento e disse:
- Terminou, correu tudo bem, pode levantar o exame na próxima semana. Como se sentiu?
- Tive um bocadinho de frio, respondi.
O medo e o pânico não confessei, só cogitei:
- UFA! Chegou ao fim, prova superada!

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