Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Durão Barroso - Não desperdiçar

Uma nova direita para Portugal

Ideias

2014-11-06 às 06h00

José Manuel Fernandes José Manuel Fernandes

Durão Barroso cumpriu dois mandatos à frente da Comissão Europeia, assumindo aquele que é reconhecido como um dos mais difíceis e complexos períodos da existência da União Europeia, ao longo de mais de meio século de paz e prosperidade económica e social. O balanço é francamente positivo. Nós, portugueses, devemos e podemos estar orgulhosos. A dimensão de Portugal não facilita o feito. Mas graças à fibra dos portugueses, Portugal torna-se maior e os feitos conquistam-se. Prova-o Durão Barroso, Mourinho, Cristiano Ronaldo, António Guterres, entre muitos outros. Ainda que toleremos mais facilmente o 'treinador' e o 'jogador', mas nada perdoamos ao 'político'. Também somos 'maiores' pela qualidade de todos os anónimos portugueses espalhados pelo mundo que dão cartas nas mais variadas profissões.
Bem sei que a moda é criticar o trabalho de Durão Barroso, responsabilizando-o pelos insucessos da UE e até os nacionais. Temos, aliás, o hábito excessivo de colocar a culpa dos nossos próprios males nos outros. Quantas vezes atiramos injustamente pedras à UE?
Foram 10 anos de grande exigência e enormes desafios, em que a UE alargou as suas fronteiras de 15 para 28 Estados-Membros e a zona Euro passou de 12 para 18 membros.
Em Janeiro será a vez da Lituânia aderir ao euro. Toda esta dimensão aumentou a complexidade de negociação e mobilizou os grandes espíritos eurocépticos nos augúrios mais negros.
Hoje, somos 500 milhões e a maior economia do planeta. Temos de ser justos. Os mandatos de Durão Barroso foram muito difíceis, depois de um início de legado marcado pelo fracasso da Estratégia de Lisboa e dos referendos nacionais que chumbaram o Tratado Constitucional, como aconteceu em França e nos Países Baixos. Durão Barroso enfrentou e sobreviveu a uma crise institucional e depois a uma crise financeira, económica e social.
Em 2005, viveu a crise do Tratado Constitucional que viria a ser ultrapassada em 2007 com a aprovação do Tratado se Lisboa.
De seguida, surgiu a crise financeira, com epicentro nos Estados Unidos, e que atingiu de forma particularmente dura os Estados-Membros da União Europeia mais frágeis e endividados. É necessário relembrar que uma série de 'bem pensantes profetas da desgraça', apostavam no fim do euro e na desagregação da UE. Recentemente, teve que lidar com a crise na Ucrânia e os devaneios russos.
Com muita paciência, persistência e grande capacidade de resiliência, Durão Barroso foi vencendo barreiras e obstáculos. Não foi preciso chegar a crise para o ouvir falar em crescimento e emprego e na necessidade de conciliar tais prioridades com o controlo do défice.
Insisto: o balanço é positivo. Durão Barroso deixa a União Europeia mais forte. Muitas das suas sugestões e propostas, que o Parlamento Europeu (PE) defendeu, demoraram a avançar e a serem implementadas por culpa dos Estados-Membros. É bom lembrar que a Comissão Europeia tem o direito de iniciativa, mas depois a aprovação fica normalmente nas mãos do Conselho e do PE. O problema da UE esteve e está no Conselho (Estados-Membros), cada vez mais manietado pelos egoísmos nacionais e pelo populismo. A cedência aos extremismos de esquerda e direita vai pagar-se muito cara.
A crise mostrou a interdependência económica e que não podemos triunfar num mundo global com a atitude do 'orgulhosamente sós'. Provou ainda que a arquitectura do euro não estava completa. A prevenção e a coordenação são essenciais numa economia global.
A criação de novas entidades de supervisão e o reforço da coordenação foram atingidos. Durão Barroso deixa a UE com instrumentos que não existiam, para poder ajudar e salvar Estados-Membros que não possam ir directamente aos mercados. O mecanismo europeu de estabilidade é disso exemplo.
A união bancária é importantíssima, garante fiabilidade e credibilidade, protege o contribuinte. A sua existência teria evitado os problemas chamados BPN e BES, assim como as suas repercussões nas contas públicas e nos bolsos dos contribuintes. A UE é líder no combate às alterações climáticas e na defesa do ambiente com o contributo de Durão Barroso, num processo de negociação à escala planetária que implicou levar os dois principais poluidores, EUA e China, da posição de bloqueio ao reconhecimento da urgência em fazer face às alterações climáticas.
Realço o seu empenho e força nos processos de negociações e nas definições dos quadros financeiros plurianuais 2007-2013 e 2014-2020, com uma luta intensa com os Estados-Membros para assegurar maior solidariedade e a defesa intransigente da coesão, de importância fulcral para Portugal.
Ajudou Portugal com o que disse e com o que fez. Nas questões mais difíceis, na renegociação das maturidades e dos prazos da dívida, a sua acção foi fundamental, o que permitiu a poupança de milhões de euros aos contribuintes portugueses. Os 'seus' comissários trataram bem Portugal e, para tal, Durão Barroso nem precisava de lhes pedir.
Há muitos portugueses em postos-chave, o que é de relevar. Todo este trabalho, como se impunha, foi discreto, mas valeu a pena. Portugal não se pode dar ao luxo de desperdiçar a competência, o conhecimento, a capacidade de negociação e a rede de contactos de Durão Barroso.

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