Correio do Minho

Braga, quinta-feira

É bom acreditar...

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Conta o Leitor

2014-07-20 às 06h00

Escritor

Sandra Campos de Almeida

É bom acreditar... e era assim que Ela pensava no inicio quando o conheceu.
Só que não previa que existisse uma certa imprevisibilidade, tal como uma porta que se vai abrindo e deixando visualizar o outro lado.
A vida é mesmo assim, uma descoberta a cada passo, mais ou menos iluminado.
Como casal, tinham tudo para dar certo. Todas as pessoas do seu rol de amizade e conhecimento, comentavam que eram o 'casal perfeito'!

Nada de discussões, sempre com uma palavra amiga, uma demonstração de carinho, afecto, ternura, e, até através de um simples olhar, irradiavam cumplicidade.
Eles sentiam-se o centro das atenções, onde todos depositavam um mar de felicidade, mas que no fundo isso acabou por lhes trazer a infelicidade.

Apesar de terem a quase perfeição, a nível familiar, profissional e a dita beleza corporal, acabava por faltar sempre mais alguma coisa, por mais insignificante que ela fosse.
O facto de Ela se sentir vista como o casal perfeito, mexia com o seu estado interior... visto que isso abalava qualquer passo, gesto ou palavra que desse ou falasse...pois já estaria a sair do previsível.

Mas mesmo assim, a tão famosa 'perfeição' que todos depositavam em relação a eles como pessoas singulares e como casal, já havia sido procurada por Ela, mas houve sábio que lhe revelou que a 'perfeição' não existia... duvidou...continuou a sua busca pelos caminhos da vida e concluiu que ao fim desses anos médios de existência, que afinal a 'perfeição' não era palpável, não era visível e nem sentida...logo concluiu que afinal o sábio tinha-lhe revelado a verdade.

Ela sentia uma necessidade, de estar consciente dos seus pensamentos, tinha a delicadeza de escolhe-los com cuidado. Dizia algumas vezes: 
'Cada individuo é uma 'Obra-prima'!! Somos o 'Miguel Ângelo' da nossa vida...o 'David' que está a esculpir, somos nós!'

Ela não era adepta da rotina e o facto de ter de programar os dias, eram devastador... Apenas queria ter consciência do seu próprio 'eu', do 'eu' do seu companheiro, e ter, de alguma forma um rumo traçado a dois, para que juntos remassem na mesma direcção, e dormir a cada noite com o desejo que no dia seguinte tudo se ajeitasse. Só que afinal, não chegaram a lugar nenhum...

Todos os contos, só são considerados bons quando existe algum tipo de conflito, quando não resistem à perfeição. E ela, sabia que só existia a imperfeição perfeita.
Ela vivia a realidade da sua imaginação, ofuscando o lado escuro, imenso que coabitava com o seu lado colorido de todo o seu ser.
E, foi assim que os anos foram passando; a família cresceu, mas não resistiu às intempéries da vida...

Por vezes, ao silêncio da noite Ela confessava a si mesma: 
' Quero ir...quero ficar…vou abrir o baú da minha alma e contemplar a luz que vem lá de dentro, perder-me no tempo e percorrer cada recanto do meu baú rodeada pela raio incandescente, que liga a minha alma ao meu corpo e ver se me elucida de um rumo a tomar...'
Após alguns bons anos, o cheio virou vazio...a ordem demoliu-se e virou o caos, mas...com a coragem nas palavras e o corpo mental fragilizado, sem discussão e sem críticas Ela lhe disse: 
' Tenho de ir... e Tu?!... Tu tens de me deixar ir...'

Deram um longo e apertado abraço, daqueles que só eles sabiam dar... forte, mas sem apertar. Ela Olhou-o nos olhos, no espelho da alma, lugar que ela conhecia tão bem, mais do que ele próprio. Como instinto os lábios se atraíram e deram um beijo cúmplice, tal e qual no início... um beijo roubado...! Sem conflito e ao mesmo tempo não o querendo, desejava-o acima de tudo.
Foi assim que se afastaram, tendo a plena consciência que ali era o leito da relação, em que tanto acreditaram e depositaram o mais que poderam.

E já sozinha algumas traiçoeiras gotas cristalinas de lágrimas pingaram, enfeitando o seu rosto e delas nasceram momentos onde acabou por se encontrar. 
Ela sentia que eram sinal evidente da presença de uma ausência que estava prestes a acontecer, e por mais que se castigasse por isso, havia sempre algo que deveria ser recordado como saudade, não fosse afinal de contas o 'passado um cozinhado de sorrisos, em banho de lágrimas'.

Como gostava de ler, um dia pegou ao acaso num pequeno livro que haviam-lhe oferecido e saltou-lhe para os olhos um pequeno excerto de William Shakespeare:
'A vida não é eterna e tudo tem um prazo, nossas vontades mudam nas viradas do acaso, pois esta é uma questão ainda não resolvida: a vida faz o amor ou o amor que faz a vida?'
Coincidência ou não, era uma frase que se enquadrava no seu estado actual. Nada tem prazo de validade nesta vida, sem contar tudo pode mudar da noite para o dia, e sem razão aparente, onde a razão de o ser, até a própria razão desconhece.

O tempo foi decorrendo com poucas falas entre os dois, até que numa das vezes em que os rebentos foram entregues para passar o fim-de-semana, voltaram a estar frente a frente. Olharam-se nos olhos tanto tempo depois e Ela, voltou a sentir o seu sorriso delicado e carnudo, o brilho do seu olhar continuava reluzente. Disse para si mesma:
 'Como continuas lindo!! a tua boca um lugar perfeito para me embebedar de prazer, e eu? Eu continuo a despertar corações, a saber que sou desejada pelos homens, mas que ao mesmo tempo eles fogem de mim... e no fim de isto tudo, continuamos a ser quem sempre fomos, e, que afinal a dita palavra amor não existe, quando sentimos na própria pele que tudo o que era antes e depois se mantém intacto...'
Nesse exacto momento, houve como uma magia no ar...!!

É tão bom viver momentos assim tão especiais, sim, era apenas um momento, mas não um momento qualquer. Por fracções de segundos, foi possível perceber a sincronia de pensamentos, que funcionaram como um segredo.
Era como observar as engrenagens do Universo a encaixarem-se como peças de um puzzle com uma perfeição jamais sentida por Ela, e reflectiu que nada...mas nada mesmo...acontece por acaso.
Mesmo sentindo esta vibração todo, ela pôde respirar fundo e dizer: 
'Fizemos o que tinha de ser feito...'

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