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Braga, segunda-feira

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É Carnaval… mas Braga leva a mal

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É Carnaval… mas Braga leva a mal

Ideias

2019-03-05 às 06h00

João Marques João Marques

Estamos no Entrudo, época própria para transitórios períodos de transformação de identidade onde muitos assumem aquilo que não são. Se a brincadeira carnavalesca não coloca riscos relevantes à sociedade, menos certa é a inofensividade dos estados precários de agentes políticos com responsabilidades. O introito serve apenas para enquadrar o espetáculo interno que o PS Braga tem vindo a oferecer nos últimos tempos. Reconheço que a vida interna dos partidos só respeita aos seus militantes, mas as suas ramificações espraiam-se pela sociedade independentemente da vontade dos seus dirigentes.
Ora, desde a eleição inicial do vereador Artur Feio (há cerca de um ano), agora reconfirmado líder concelhio do PS local, que se assiste a um lavar de roupa suja público que nada dignifica quem nele toma parte e que mina os esforços conjuntos de muitos agentes políticos na recuperação do crédito e bom nome da atividade partidária em Portugal, objetivo que nos deve unir a todos.

Infelizmente, a saída de uma longa e pessoalizada liderança do poder na autarquia bracarense, colocou a nu uma velha máxima da política que liga personalidades fortes e magnetizantes, como foi o caso de Mesquita Machado, a fenómenos de eucaliptização de novos protagonistas. Não é seguramente um exclusivo do PS Braga, mas os 37 anos de liderança do executivo, protagonizados (quase) ininterruptamente pelo ex-edil socialista, potenciaram enormemente a orfandade de referências internas que pudessem ser reconhecidas, dentro e fora do partido.
Viu-se, desde logo, em 2013 a dificuldade de encontrar um discurso que compatibilizasse um protagonista do passado com uma narrativa de futuro. Repetiu-se o drama em 2017, quando se optou por uma solução de segunda linha, já muito marcada pela divisão interna, mas que, ainda assim, apostava no refrescamento geracional para dar resposta às críticas de ensimesmamento do partido, ou seja, de completo fechamento sobre as mesmas pessoas e clãs do passado.

O PS não só perdeu as eleições para a Coligação Juntos por Braga, como foi derrapando na distância para os vencedores, chegando mesmo ao ponto de ter um dos piores resultados que o principal partido da oposição jamais havia conseguido em relação ao vencedor. E isto dá não só a ideia do desacerto nas opções, como da incapacidade em sair de um círculo vicioso de maus protagonistas e, sobretudo, de más, inconsequentes ou inexistentes ideias.
Poder-se-ia pensar que este desnorte, que aproveita à Coligação Juntos por Braga, me deixaria com um sorriso de orelha a orelha, mas é o contrário. É preocupante que, quase 6 anos depois da primeira vitória de Ricardo Rio, o PS ainda não tenha encontrado uma linha de rumo coerente e incontroversa no espaço político bracarense. Isto não é maledicência, é a constatação de uma evidência que qualquer pessoa que ouça os fóruns de rua ou das redes sociais não nega.

Não ajuda ter, à frente da autarquia, um presidente de Câmara tão dinâmico e uma equipa que tanto contrasta com o marasmo anterior, assente nas políticas de betão armado. Como não ajuda a dificuldade de o PS se ver perante a necessidade de operar uma revolução interna, que mude os rostos, as práticas e facilite a ultrapassagem plena dos muitos erros do período mesquitista.
Sendo tudo isso verdade, muito menos ajuda termos processos eleitorais internos marcados pela incompetência atroz de candidatos que nem uma moção política apresentam aos eleitores. Não sei, nem quero saber se é uma exigência estatutária do PS, o que sei é que é um erro político de principiante, que não abona nada em favor dos candidatos a líderes do principal partido da oposição no nosso concelho.

Como fazer diferente cá fora, se nem um projeto coerente e estruturado se consegue apresentar internamente? Dá a ideia que o que interessa são os lugares, o que está em disputa são cadeiras e não ideias. E isso, num partido que sai de derrotas traumáticas, fruto, justamente, da inexistência de políticas alternativas sólidas, torna ainda mais difícil o caminho da redenção eleitoral.

Pior só mesmo ver erigido a tema principal desta última disputa interna do PS o do(s) lugar(es) de deputado(s) que haverão de caber ao PS em Braga. Decididamente ainda não se deram conta que os bracarenses não estão à espera de saber se os nomeados são Pires ou Sousa. O tempo dos óscares já passou, mas se algum eleitor, no concelho, aguarda por algum prémio, esse será o do melhor argumento (leia-se programa político) e não o do melhor ator secundário.
Perante esta falta de liderança assente nos projetos, pela repetida intriga interna e dada a vitória de quem já antes lá estava e pouco ou nada acrescentou, volto ao início do texto e a esta época de faz de conta para roubar a Sérgio Godinho a pergunta que qualquer bracarense desejará fazer a Artur Feio: pode alguém ser quem não é?

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