Correio do Minho

Braga, terça-feira

E depois do 6º ano, que língua estrangeira escolher?

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Correio

2010-05-06 às 06h00

Leitor

Aproxima-se o final do ano lectivo, a matrícula no 7º ano e, com ela, a escolha de mais uma língua estrangeira. É esta, por isso, a pergunta que começa a pairar na cabeça dos alunos do 6º ano e dos seus pais.

É legítimo que todos reflictam, troquem impressões, procurem informações, se aconselhem…
Interessa que arranjem argumentos; importa que, ao chegar a hora da decisão, esta venha a ser reconhecida como a melhor, nesta etapa da vida dos nossos educandos.

Durante muito tempo, a língua francesa dominou o plano de estudos dos alunos do 3º ciclo, como segunda língua estrangeira. Hoje em dia, a realidade não é essa. Nos últimos anos, concretamente no nosso Agrupamento, o Espanhol começou a ser opção para um número crescente de alunos.

O professor de Francês pode arranjar argumentos, defendendo que aprender Francês é a escolha que faz sentido por isto e por aquilo; um professor de Espanhol apresentará outros tantos.
A opinião que se pretende partilhar convosco tem por base uma experiência pessoal (a de uma pessoa que, como tantas outras, estudou e trabalhou no estrangeiro e que, actualmente, vai viajando pelo mundo sempre que pode) e a constatação de que conseguir ou não comunicar numa determinada língua estrangeira foi factor decisivo na vida de alguns jovens que estiveram no estrangeiro, no âmbito do programa ERASMUS.

Na Universidade do Minho, onde estudei, desenvolvi e melhorei as minhas competências no domínio da língua francesa por se tratar da minha formação específica. Embora procurasse sempre bibliografia em Português e Francês, não podia escapar a alguma em Inglês (o facto de ter aprendido esta língua no ensino secundário permitia-me compreender o que lia para recolha de informação) e em Espanhol. Apesar de nunca tenha estudado esta língua, percebia o que lia.
Nas relações sociais e de trabalho com estrangeiros, percebi que a língua inglesa me fazia muita falta por ser, de facto, uma língua “franca”, no sentido de que é língua de comunicação para qualquer estrangeiro, e que, por dominar a língua francesa, conseguia comunicar muito bem com quem falasse esta língua. Mas cedo concluí que, mesmo sem ter aprendido Espanhol ou Italiano, não tinha dificuldades em comunicar com gente dessas nacionalidades.

Actualmente, muitos jovens, no âmbito do programa Erasmus, têm a oportunidade de ir estudar para o estrangeiro. E, neste domínio, deixam-se aqui alguns casos reais:
• uma jovem portuguesa, a tirar o curso de Fisioterapia na Escola Superior de Tecnologia e Saúde do Porto, decidiu ir fazer um estágio num Hospital Universitário de Valência, internacionalmente reconhecido na área cardio-respiratória. Estudou, comunicou, conviveu, aprendeu, tornou-se mais competente sem precisar de aprender a língua espanhola;
• uma jovem portuguesa, no 3º ano, do curso de Línguas e Literaturas Modernas, da Faculdade de Letras do Porto (variante Inglês-Alemão), decidiu ir estudar para a Noruega. Percebeu que o facto de dominar a língua inglesa lhe permitiu (con)viver nesse país sem qualquer tipo de obstáculo no domínio da comunicação;
• um jovem do curso de Medicina queria ir , pelo período de um ano, para uma universidade belga. Teve dúvidas quanto às suas competências em língua francesa. Foi-lhe sugerido que, se sentisse dificuldades, se inscrevesse num curso de língua francesa para estrangeiros, em regime pós-laboral. Não precisou e concluiu que, afinal, os três anos de aprendizagem, ao longo do terceiro ciclo, tinham sido suficientes para estudar, comunicar, viver num país francófono;
• dois jovens - um futuro economista, outro a tirar o curso de engenharia - foram para Itália e Grécia, respectivamente. Ambos fizeram um curso prévio, de curta duração, para acompanharem melhor as matérias.

Em contexto social e escolar, ouve-se frequentemente dizer:
“O meu filho escolheu esta língua porque foi a escolha feita pelos amigos.”
“O meu filho escolheu esta língua porque é a escolha da maioria da turma e assim salvaguardo um horário no turno que pretendo.”
“O meu filho vai escolher Francês /Espanhol porque se calhar, mais tarde, pode precisar desta língua na sua actividade profissional.”
“O meu filho vai aprender Espanhol/Francês porque vai para Espanha/França tirar um curso superior”.

Ao prever o futuro, habitualmente, o raciocínio fica-se pela dicotomia: Francês ou Espanhol. Mas quem nos diz que o filho não vai precisar de comunicar com chineses, indianos, alemães, japoneses…?

Será assim tão importante antecipar cenários, num tempo em que tudo é efémero, mutável, indefinido? Para quê, se não faltam cursos de curta duração, em função dos objectivos dos destinatários?
Quando o filho for adulto, interessa, isso sim, que, em função das suas necessidades concretas, saiba optar por aquisição ou desenvolvimento de competências (leitura/ comunicação oral/ escrita/ domínio de vocabulário específico) da(s) língua(s) que precisa de dominar.

Talvez agora o mais importante seja mesmo saber que “A aprendizagem de uma língua mais difícil torna-se mais fácil, rápida e eficiente se acontecer mais cedo.” e que “As crianças têm muito mais facilidade em aprender línguas do que os adultos.”

Nesta fase, talvez o melhor seja mesmo dizer: “O meu filho vai aprender Francês ou Espanhol porque é a língua que ele quer aprender! “
Deixemos que uma relação afectiva com a segunda língua estrangeira se estabeleça; ajudemos cada adolescente a perceber que quantas mais línguas aprender, mais facilidade terá em compreender as pessoas e o mundo. Será certamente mais feliz.

Alice Machado ( professora do 3º ciclo, Agrupamento de Escolas de Lamaçães
Escola Básica do 2º e 3º Ciclos de Lamaçães)

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