Correio do Minho

Braga, sábado

É mais fácil reprová-los

Investir em obrigações: o que devo saber?

Voz às Escolas

2016-02-25 às 06h00

José Augusto

Nas últimas décadas, Portugal alcançou progressos notáveis no campo da educação escolar. Após a instauração do regime democrático, o esforço de qualificação escolar da população portuguesa foi colossal. Porém, o atraso gerado por meio século de ditadura criou uma pesadíssima herança que ainda não conseguimos superar. Como a maioria dos países com quem gostamos de nos comparar continuou a progredir, o grande incremento do nível de qualificação das novas gerações, ainda não é suficiente para colocar as qualificações escolares da população portuguesa par do que existe, há muito, na quase totalidade dos países europeus.
Mesmo entre as novas gerações, é ainda muito alta a proporção de jovens adultos (18 aos 24 anos) que não completou o ensino secundário e não se encontra em formação. A escolaridade obrigatória, isto é, a obrigação de frequentar o sistema de educação e formação, foi alargada até aos 15 anos e, recentemente, até aos 18 anos. Mas ainda está muito longe de corresponder à conclusão do ensino secundário. Entre os alunos que chegam a frequentar o 12º ano ou equivalente, mais de um terço não o conclui à primeira vez.
Com a garantia do acesso à escola praticamente resolvida, ainda que nem sempre com a proximidade geográfica desejável, com as taxas de abandono precoce (antes dos 18 anos) a tenderem rapidamente para casos residuais, resta um enorme problema de insucesso com números ainda avassaladores.
Entre 2006/07 e 2014/15 a taxa de sucesso no 12º ano dos cursos gerais nunca ultrapassou os 68%. A barreira dos 70% parece inatingível, mesmo precedida de um número significativo de saídas entre matrículas, que não são contabilizadas neste indicador. Aliás, na maior parte daqueles anos escolares, a taxa de sucesso no 12º ano foi inferior a 66%, ou seja, na maior parte deles, menos de dois terços dos alunos matriculados no ano terminal dos cursos gerais concluíram o ensino secundário nesse ano. E, infelizmente, também nos cursos profissionais, os números dos últimos anos são idênticos.
Um sistema educativo que alguns apelidam de “facilitista” reprova alunos como poucos! Em Portugal é fácil reprovar e quase metade dos jovens passa por essa experiência no seu percurso escolar. Muitos deles mais do que uma vez.
Reprovar o aluno é a maneira mais preguiçosa de lidar com o problema do insucesso. A reprovação como resposta ao insucesso esgota-se no “castigo” de repetir o mesmo, no ano seguinte, esperando que o resultado final seja diferente. Na verdade, as estatísticas mostram que quem reprova uma vez tem uma elevada probabilidade de voltar a reprovar até ao final do seu percurso escolar. Responder ao insucesso com a reprovação é, mais do que tudo, uma resposta preguiçosa. Dada a “penitência” ao aluno (e às famílias) espera-se que a repetição da dose resolva o problema e permita alcançar a “salvação”. O esforço de identificação das causas do insucesso é mínimo ou nulo. A adaptação das estratégias que falharam é inexistente. Não se implementam ações promotoras de mudanças de atitudes e comportamentos. Tudo se joga na presunção de que a reprovação vai gerar uma espécie de epifania redentora que leva a criança ou o jovem para o caminho do sucesso escolar.
Exigente seria não aceitar o insucesso e, perante essa ameaça, cobrar mais trabalho a todos. Identificadas lacunas na aprendizagem, devia ser obrigatório ativar programas de apoio e compensação educativa. Esses programas de reforço educativo seriam facilmente financiados pelo alívio do imenso lastro de despesa inútil causado pelas reprovações. Caso a caso, diagnosticadas as causas, teria que se comprometer todos os responsáveis na sua resolução, fossem os alunos, as famílias, os professores, as escolas ou o ministério da educação. A todos, na proporção da sua responsabilidade, se devia exigir mais trabalho e mais empenho na recusa do insucesso. Antes de reprovar, devia exigir-se, a todos os envolvidos, todos os esforços para evitar o insucesso e, se ainda assim ela se consumasse, para impedir que ele se repetisse.
Embora todos eles sejam desígnios constitucionais, organizar o sistema educativo para o sucesso é mais do que organizá-lo para o acesso e para a frequência universal.
Fomos capazes de trabalhar e investir para garantir o acesso à educação. Fomos capazes de generalizar a frequência até aos 15 anos e estamos a conseguir a mobilização e os recursos para obter a frequência até à idade limite dos 18 anos. Teremos capacidade para garantir o sucesso escolar pleno? E teremos a coragem necessária?
É que vai dar muito mais trabalho! É mais fácil reprová-los.

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