Correio do Minho

Braga, sábado

E o populismo vai fazendo o seu percurso

Menina

Ideias

2018-06-22 às 06h00

Margarida Proença

Oexcesso de futebol nas notícias, nas discussões, nos tempos de antena, está a tornar-se absolutamente claro. Não é que não vista a camisola pátria nestas alturas de competição global, ou que não responda emotivamente a mais uma demonstração das capabilidades de um compatriota. Como todos, penso, gostaria que Portugal ganhasse o Mundial de 2018, mas os jogos e o constante debate sobre os mesmos, acompanhando o caso do Sporting , e-mails e SMS incluídos, está a corresponder a uma overdose. E com tanta discussão, e tão esclarecidos intervenientes, continua a não ficar claro como é possível a rápida destruição de ativos e reputação empresarial, os erros e potenciais soluções. Claro que seguramente fará sentido do ponto de vista de cada uma das empresas de media, traduzindo contenção de custos na produção de conteúdos e eventualmente receitas publicitárias adicionais, mas damos por nós como que anestesiados pela emoção imediata, á flor da pele digamos, esquecendo outras coisa muito mais complexas e dolorosas. Como por exemplo a notícias que nos chegam dos EUA, de crianças separadas dos seus pais e fechadas em jaulas por causa da política anti-imigração da atual administração americana.

Dani Rodrik é um reputado professor de Harvard, Economia Política Internacional. Num dos seus artigos , de junho de 2017, discute o populismo e a política de globalização. O artigo está muito bem escrito, e é de facto muito interessante. O autor manifesta uma relativa surpresa com o que tem vindo a acontecer no contexto mundial, e que no fundo remete para uma alteração substantiva do trajeto evolutivo em que estávamos. Por outras palavras, as ultimas décadas tinham feito acreditar num percurso de maior transparência, maior abertura a um mundo global nas suas diferenças, ma também na sua capacidade de acompanhando mais inovação, mais tecnologia, maior facilidade de comunicações, maior crescimento económico e abertura das fronteiras.

Mas na verdade, não é essa a via por onde estamos a seguir, tal como a crise de 2008 , o Brexit, as recentes eleições um pouco por todo o lado, a crise na Itália, nos têm vindo a demonstrar . O populismo, um termo que vem do século XIX, e que teve expressão clara no século XX, está aí de volta , com novas expressões , mas a mesma raíz: contra o establishment, contra as elites, contra quem vem de fora ou é diferente, favorecendo paradoxalmente estilos de governação mais duros.

Como Rodrik faz notar, trata-se de uma evolução antecipável; a globalização assente num forte progresso tecnológico e na abertura sustentada de fronteiras, cria ganhadores e perdedores, como em qualquer competição. Por finais do século XIX, na Europa, a importação de produtos agrícolas mais baratos dos Estados Unidos, da Rússia e da América Latina levou a uma afixação quase generalizada de tarifas que se veio depois a estender aos produtos industriais, e posteriormente aos limites à imigração. O impacto desse movimento protecionista tem sido muito discutido; na opinião de muitos historiadores, permitiu o desenvolvimento da indústria e o crescimento económico, bem como a transferência de trabalhadores agrícolas, menos produtivos, para um emprego mais produtivo na indústria. O aumento da tarifa foi mais substancial nos países europeus mais pobres, onde a nobreza rural, prejudicada nos seus interesses pela penetração de produtos mais baratos, continuava a deter uma forte influência política.

Os acordos com os lobbies industriais vieram a permitir a extensão das tarifas aos produtos industriais nos países mais periféricos, consolidando o nacionalismo e o protecionismo, mas a evidência não permite sustentar a ideia de que por essa via foram criadas as bases para um maior crescimento económico. Enfim, tem a ver com redistribuição – quem tem interesse na adoção de políticas mais protecionistas e nacionalistas são naturalmente aqueles que mais teriam a perder com a sua ausência. Nas minhas aulas, vou tentando ensinar – creio por vezes que com baixo sucesso - um teorema devido a dois economistas, Stolper e Samuelson. Esse teorema demonstra que em contexto de liberalização económica, estando abertas as fronteiras a livre circulação dos produtos, e sob certas condições, haverá sempre fatores de produção que perderão, sendo que será expectável que ganhem mais aqueles em que o país é mais dotado.

Por exemplo, no caso das relações comerciais entre os EUA e a China, os primeiros tenderão a exportar mais produtos tecnologicamente mais sofisticados, que requerem trabalhadores mais especializados. Os lucros adicionais destas empresas permitirão maior emprego e salários mais altos nos EUA; a distribuição de salários vai assim tornar-se mais desigual, reforçando a abertura a políticas mais protecionistas. Em contrapartida, tenderão a importar produtos que exigem mais trabalho indiferenciado, pouco especializado, em que a China tem uma elevada dotação, e cujos salários tenderão a aumentar. Isto implica redistribuição, ganhos e perdas, e quanto mais dividido politicamente estiver o mundo, maiores serão para todos. A governação global, a assinatura de acordos na linha de uma maior integração e regulação poderão ser a única forma de conter o livre funcionamento dos mercados numa linha claramente centrífuga.

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