Correio do Minho

Braga, sexta-feira

- +

É possível ou desejável um tradutor linguístico universal?

Beco sem saída

Ideias

2017-01-20 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

A existência (atual e pretérita) de uma miríade de línguas diversas é um facto. Segundo a Sociedade da Linguística da América, no final da década passada o seu número rondava as 7000.
Aqueles que acreditam num Criador de todas as coisas pasmam com tal profusão idiomática e julgam virtualmente insondável a razão última por detrás dela. Os demais partilham desse espanto e conjeturam uma árvore de dialetos enraizada numa protolíngua que já só pode ser imaginada. Uns e outros, todavia, enfrentam um mesmo problema prático: como conseguir comunicar (eficazmente) nesta Babel?

Duas vias para tentar resolvê-lo - e não apenas atenuá-lo com paciente e hábil trabalho de emparelhar vocábulos e expressões de línguas dissímeis - têm sido sonhadas: criar uma língua ecuménica versus engenhar um dispositivo de tradução instantânea de qualquer língua.
As várias pasigrafias, ou sistemas linguísticos que correlacionam símbolos e conceitos, a começar no concebido pelo teólo- go luterano alemão Daniel Jenisch em 1796. o Esperanto, língua artificial projetada pelo médico polaco judeu Ludwik Za- menhof em 1887 e a linguagem pictórica internacional “ISOTYPE” saída do génio do sociólogo, economista e filósofo da ciência austríaco Otto Neurath em 1936, são exemplos de aproximações da primeira.

A segunda, em contrapartida, tem sido sobretudo alimentada na ficção tecnocientífica. Foi supostamente o novelista estadunidense Murray Leinster quem primeiro a sugeriu em First Contact (1945), mas a hipótese de um tradutor linguístico universal foi popularizada em Star Trek pela oficial de comunicações da nave Enterprise Hoshi Sato.
No mundo real, desde o início da década que Google e Microsoft, por exemplo, vêm desenvolvendo tecnologias de tradução rápida. A máquina multilingue “Microsoft Translator” alojada pela empresa de Redmond na sua nuvem traduz de mais de 50 idiomas.

Mais recentemente, no entanto, o “Pilot” saído dos laboratórios da Waverly promete revolucionar - por ser relativamente acessível (menos de 200 euros) e bastante fiável - o modo como comunicamos globalmente. Resumidamente, para que essa geringonça funcione são precisos apenas dois pares de auscultadores e um smartphone ligado à Internet. Com esse hardware e uma app instalada basta falar para o microfone do aparelho (e.g., em português) e os dados são traduzidos on-line e transmitidos para os auscultadores de um recetor (e.g., em chinês) permitindo uma conversa em tempo real.

Na verdade, o que o Pilot permite é pegar numa língua que nos seja estranha e fazer com que ela fique minimamente compreensível no nosso vernáculo. Isso, porém, fica muito aquém do que se espera de um tradutor universal. Com efeito, exige-se que nos habilite não só a falar uma língua de modo fluente, isto é, ao nível de um falante nativo, e não vacilante e arrevesado, mas também que incorpore a pluralidade de entoações e dicções, de frases idiomáticas, de gírias e jargões, de expressões humorísticas subtis e culturalmente modeladas, que reconheça e corrija erros de pronúncia, que se adapte a pessoas com algum problema de fala, etc., etc.

Mas isso nem o Pilot nem qualquer tradutor automático comercializado consegue para já satisfazer. No entanto, essa senda está aberta e em franca evolução, de modo que quem esteja envolvido com a aprendizagem de línguas estrangeiras mais se deparará com as seguintes questões: continuará a valer a pena fazê-lo ou estamos perante mais um domínio da atividade humana ameaçada de extinção pelo progresso tecnológico?

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

17 Setembro 2021

Pensar o futuro

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho