Correio do Minho

Braga, terça-feira

E quando a roupa velha nos não servir?

O que nos distingue

Escreve quem sabe

2018-02-07 às 06h00

José Hermínio Machado

Para o artigo de hoje vou partir de uma citação retirada da obra de Kazuo Ishiguro, Os Despojos do Dia, Lisboa, Gradiva, 2017, 5ª edição. Quem faz a intervenção citada é o mordomo, personagem principal do romance, um homem que vai contando toda a sua acumulação de sabedoria para cumprir as suas funções e vai acabar por se aconselhar a si mesmo o aumento do bom humor, ou do espírito da graça, o saber encarar as coisas e dizê-las com mais graça, de modo a poder enfrentar novos desafios na continuação da sua função de mordomo. «Naturalmente, como muitos de vós, tenho uma certa relutância em mudar excessivamente os costumes antigos. Todavia, considero que não existe mérito nenhum em nos aferrarmos, como alguns fazem, à tradição pela tradição. Nesta era da electricidade e de sistemas de aquecimento modernos não há necessidade absolutamente nenhuma de contratar o número de empregados que ainda eram precisos há uma geração. Na realidade, tem sido mesmo minha opinião, há já algum tempo, que a manutenção de um número desnecessário de empregados simplesmente por amor à tradição do que resulta disporem de uma quantidade de tempo livre pouco salutar tem constituído um factor importante do acentuado declínio dos padrões profissionais.» (p. 12)

O leitor poderá mobilizar esta citação para outras polémicas, mas a que me interessa agora fazer, por analogia, é precisamente esta que se traduz na fórmula de que a tradição pela tradição pode ser um estorvo ao desenvolvimento ou à mudança de paradigma de enfrentamento dos problemas. Em todas as tradições existe uma espécie de mandamento, também ele já tradicional, que é o de seguir mudando, adaptando, considerando sempre as contribuições que o presente histórico vai obrigando a tomar. No que se refere às práticas culturais, musicais, de cantar e de dançar, ou às práticas culturais de trajar, de dançar, ou às práticas empresariais de criar eventos e de os sustentar, ou às práticas editoriais de estudos e narrativas, enfim, o importante é encarar a necessidade de um espírito de graça, de leveza de consideração e reflexão, sem dar vantagens a facilitismos, evidentemente, mas desafiando os cânones das leituras consagradas. Muito rapidamente poderemos entrar em revisão acelerada e imposta ideologicamente de paradigmas que até ao presente funcionaram como o espelho reflexivo das práticas folclóricas.

Será então urgente que voltemos ao seu estudo e consideração, aprofundando a vitalidade decorrente das histórias, das cantigas, da linguagem, das danças e dos trajes. Tomemos como exemplo o trabalho que muitos grupos fizeram e fazem a partir da música medieval, como a trouxeram para a nossa contemporaneidade, sem que dela possuíssemos por vezes testemunhos rigorosos. Tomemos também como exemplo os estudos que se fazem cada vez mais sobre as sucessivas retomas folclóricas em países que passaram por mudanças de regime desde a segunda grande Guerra mundial. É sempre tempo de retomar «élans» de motivação, de aprofundamento e de refundação. Conta-se que uma mãe enviou a roupa ao filho que estudava em Coimbra: «aqui te envio umas calças novas feitas de umas velhas de teu pai, quando as não usares, manda-mas para eu fazer outras para teu irmão mais novo.» E assim. até se retomar a produção a partir de outro pano

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