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É seguro usar óculos de realidade virtual?

Beco sem saída

Ideias

2016-09-30 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Como tem vindo a tornar-se costume na parte final de cada ano, sobretudo ao aproximar-se o período natalício, novos tentadores gadgets tecnológicos são lançados no mercado de consumo. Adivinha-se que dentro de meses entre os mais cobiçados estarão os óculos de realidade virtual (ORV), candidatos a estrela de vendas da quadra. E a escolha será provavelmente entre o Gear VR da Samsung, o Oculus Rift da Sony, o Morpheus, igualmente da Sony (para funcionar com a PS4), o Vive da HTC e o HoloLens da Microsoft, aqueles que melhor parecem combinar a qualidade da experiência que oferecem e a acessibilidade no preço.

Com exceção dos da marca japonesa que só estrearão dentro de duas semanas, os demais podem, desde há meses, ser experimentados e adquiridos em grandes superfícies comerciais do ramo. Tive a oportunidade de os testar e a sensação de imersão numa realidade outra foi absolutamente incrível. Mas deixaram-me a pensar se, para além de eventuais perigos psicofísicos, não estariam também envolvidos no seu uso riscos morais.

Os ORV permitem-nos aceder ao que o sociólogo francês Jean Baudrillard denominou “Hiper-realidade”, mundo inteiramente fabricado de modo tecnológico, gerado com base em modelos informáticos, não tendo por isso qualquer referente original e constituindo assim uma espécie de representação pura ou, se se preferir, mundo feito de simulacros e simulações que são consumidos como se fossem reais.

Tal tecnologia promete redefinir profundamente o significado da nossa experiência, os seus limites. Permitir-nos-á sentir-nos a voar como um pássaro ou pilotar um caça da II Guerra Mundial num cenário de reconstituição de alguma batalha da época ou deambular por uma casa antes de ser construída ou como é estar no corpo de uma pessoa de outro sexo ou surfar ondas gigantescas em Maui ou... uma infinidade de outras coisas ordinariamente não experienciáveis.

Todavia, como têm vindo a chamar a atenção Michael Madary e Thomas Metzinger, os ORV suscitam inquietações éticas várias. Desde logo, ao produzirem poderosas ilusões de despersonalização (embodiment), de que possuímos e controlamos um corpo que não é nosso ou de que o nosso corpo nos parece irreal, não se sabe que consequências psicofisiológicas terá a exposição cognitiva prolongada a um ambiente virtual e como afetará a nossa personalidade.

Depois, como também notaram esses dois filósofos alemães, um mundo virtual totalmente engendrado, “propicia oportunidades para novas e eficazes formas de manipulação da mente e do comportamento, especialmente quando há interesses comerciais, políticos, religiosos e governamentais por detrás da criação e manutenção desses mundos artificiais”.

Talvez entre os que mais preocupações provoquem estejam os da tentação de grandes empresas para influenciar subliminarmente quem se imergir em tais ambientes factícios, algo relativamente fácil de conseguir, programando os seus frequentadores para atuarem de modo involuntário e até contrário aos seus interesses quanto regressarem ao mundo real, ou os de organizações militares para perpetrarem atos de tortura virtual, ou ainda os de certos grupos da população mais propensos a desordens do foro psiquiátrico as verem agudizadas nessas realidades alternativas.

Enfim, os milhões de consumidores que se adivinha muito em breve irão adquirir ORV devem estar cientes de que a gama de efeitos físicos, psicológicos e morais envolvidos nessa tecnologia emergente, alguns previsíveis, muitos não, carecem ainda de detida investigação.

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