Correio do Minho

Braga, sábado

Economia circular é o futuro?

Menina

Ideias

2019-06-15 às 06h00

António Ferraz

Aeconomia mundial tem vindo a ser estruturada na base de um modelo linear de produção ou de Economia Linear, com a predominância de processos de produção assentes na utilização de matérias-primas, energia, água e na sua transformação em produtos com “utilidade”, quer dizer, em produtos aptos a satisfazer as necessidades dos consumidores finais.
Porém, o modelo linear de produção tende necessariamente, por um lado, a gerar efeitos secundários perniciosos, os chamados produtos “sem utilidade”, tais como, poluição e desperdícios ou resíduos e, por outro, a ser ameaçado devido a disponibilidade restrita de recursos naturais. A Economia Linear é, assim, um modelo de produção que se encontra associado ao ciclo produtivo: extrair-transformar-descartar.

Foi o modelo que até bem recentemente não deixou de ser eficiente, dado que gerou produção em larga escala, a um custo tendencialmente menor, com cadeias de abastecimento globais suportadas por novas tecnologias, favorecendo a economia mundial. Porém, o esgotamento dos recursos naturais, o aumento exponencial de desperdícios ou de resíduos e as alterações climáticas, tornaram-se maléficas e insustentáveis para com o nosso planeta. Chegou, sem dúvida, a altura de se alterar o paradigma de modelo de produção, de criar uma nova ideia de gestão!
Uma alternativa preconizada na actualidade ao modelo linear de produção é a designada Economia Circular, considerada como condição indispensável para um desenvolvimento económico global sustentável (de longo prazo), na lógica de uma economia verde e que seja garantia de maior eficiência no uso dos recursos naturais escassos e de maximização da reutilização.

A Economia Circular assenta, portanto, nas seguintes ideias mestre:
(a) a economia deve funcionar à semelhança de um ecossistema onde os resíduos ou desperdícios tendam a desaparecer;
(b) existindo, os desperdícios ou resíduos gerados por uma indústria devem servir para matéria-prima reciclada de outra indústria ou mesmo para a mesma, aplicando-se a célebre lei físico-química de Lavoisier “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Em suma, é indispensável criar-se uma nova mentalidade no mundo no sentido do desenvolvimento de produtos resultantes do reaproveitamento dos materiais anteriormente utilizados no ciclo produtivo, os desperdícios ou os resíduos. Mais, a filosofia inerente à Economia Circular é a de que ela intervenha em cada etapa da cadeia de valor: desenho, fabrico, consumo, reparação, gestão de desperdícios ou resíduos e reintrodução de matérias-primas secundárias na economia.
Refira-se, a propósito, que a União Europeia (UE28) tem vindo a adoptar um “Plano de Acção para a Economia Circular” (desde 2015), com o objectivo de promoção e financiamento da Economia Circular, nomeadamente quanto a cinco áreas de actuação: produção, consumo, gestão de desperdícios ou resíduos, mercado das matérias-primas secundárias e medidas horizontais no domínio da inovação e do investimento.

Por sua vez, em Portugal, o enquadramento legislativo para a Economia Circular encontra-se no “Plano de Acção para a Economia Circular em Portugal” (2017), cujo desiderato é o estabelecimento de uma estratégia nacional para a Economia Circular, em concreto, na produção e eliminação de resíduos ou desperdícios e nas ideias de reutilização, reparação e renovação de materiais e energia.
Do exposto, pode-se concluir que a Economia Circular é o futuro da sociedade mundial, dado ser um modelo assente na manutenção do valor de produtos e matérias-primas durante o maior tempo possível no ciclo económico. Este modelo traz consigo enormes benefícios de curto e de longo prazo (oportunidades estratégicas), relativamente aos novos desafios económicos e ambientais:
(1) Menor volatilidade no preço das matérias-primas e restrição dos riscos de fornecimento;
(2) Novas relações com os clientes, programas de retoma e novos tipos de negócios;
(3) Melhoria da competitividade económica;
(4) Contribuição para a conservação do capital natural, para a redução de emissões e desperdícios ou resíduos e para o combate às alterações climáticas.

Estudos europeus recentes indicam mesmo que a Economia Circular poderá gerar (a) poupanças líquidas em torno de 600 mil milhões de euros às empresas da UE28 (cerca de 8% do total do seu volume de negócios anual), (b) criar 170 mil novos postos de trabalho directos no sector da gestão de desperdícios ou resíduos, (c) diminuir de 2 a 4% às emissões totais anuais de gases de efeito de estufa no espaço europeu.
Quer dizer, a Economia Circular pode vir a tornar-se na Europa (e no mundo) um verdadeiro catalisador para a competitividade e inovação.

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