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Economia do envelheciment

A saia comprida

Economia do envelheciment

Ideias

2020-02-15 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Aeconomia do envelhecimento é uma das áreas mais abrangentes da investigação económica actual. O estudo do envelhecimento populacional e dos seus possíveis efeitos económicos e sociais intensificou-se, aliás, desde os anos 1980. Ora, o crescente aumento da longevidade sendo uma notável conquista da humanidade acarreta, porém, novas questões relacionadas com os seus efeitos na vida das pessoas: duração da vida activa, modo como viverão, com que qualidade de vida e com que recursos de saúde. A economia do envelhecimento tem duas ópticas integradas, a macroeconómica e a microeconómica.
A nível “macro” sobressai possíveis efeitos negativos do envelhecimento populacional no crescimento económico, tais como, crescente aumento da expectativa de vida das pessoas não tem sido acompanhada por um aumento da taxa de natalidade que possibilite minorar o envelhecimento da população; redução de trabalhadores activos, poupança mais negativa da população idosa pode não ser compensada pela poupança da população activa implicando a redução de recursos financeiros internos destinados ao investimento produtivo (segundo a “teoria do ciclo de vida” de Modigliani, F. e Friedman, M.”), existência de desequilíbrio financeiro da Segurança Social que pode colocar em risco a sua própria sustentabilidade. Por sua vez, a nível “micro” releva a explicação das razões pelas quais as pessoas pensam em se reformar (antecipadamente) ou não, quais os modos de provisão e financiamento de cuidados de longa duração, como as pessoas acumulam e desacumulam riqueza ao longo da vida, como agem face a choques de saúde ou viuvez, as desigualdades, as solidão ou a pobreza.
Pela sua importância iremos agora centrar a nossa atenção no aspecto dos cuidadores informais face ao envelhecimento populacional. A questão dos cuidadores informais exige o conhecimento da relação existente entre economia do envelhecimento e economia da saúde, sobressaindo a análise das consequências para os cuidadores informais (em particular, de familiares), nomeadamente quanto a sua saúde física ou mental e quanto a sua participação no mercado de trabalho. É inevitável que a partir de certa idade (que varia de pessoa para pessoa) as pessoas possam vir a ter a necessidade mais ou menos permanente de cuidados de saúde, ou porque padecem de uma ou mais doenças crónica, ou porque têm uma saúde física ou mental debilitada. Note-se que são precisamente em países como Portugal, Espanha ou Itália, aqueles onde os cuidadores informais (nomeadamente, o parceiro e/ou os filhos) têm maior peso na sociedade muito devido a razões culturais, que suportam tais cuidadores que não auferem qualquer remuneração por isso.
Cite-se também que existe na sociedade algumas “ajudas formais” ao envelhecimento populacional, mas, em geral, claramente insuficientes: ajuda ao domicílio, lares seniores e políticas estatais de apoio aos idosos. Em suma, a actividade der “cuidar” de idosos familiares, mostram os estudos realizados e a própria experiência humana, afecta em maior ou menor grau a saúde física ou mental dos cuidadores informais. Se é verdade que há um sentimento positivo de que se é prestável a um familiar querido, também não é menos verdade, que “cuidar” implica em potenciais efeitos negativos na saúde dos cuidadores informais devido a pesada carga que isso implica. Sendo assim, é de clara justiça que a governação dos países adopte medidas visando aliviar a carga dos cuidadores informais, por exemplo, através de uma “remuneração” estatal específica, de uma maior provisão de cuidados formais ao domicílio o que só beneficiará a saúde dos cuidadores informais e que assim poderiam integrar amais plenamente o mercado de trabalho.
E qual é a situação actual do envelhecimento populacional em Portugal? Como sucede em maior ou menor medida na Europa, mas com contornos bem mais dramáticos, assiste-se a um crescente aumento do fenómeno de envelhecimento popu- lacional que fica a dever-se, por um lado, a uma cada vez maior longevidade dos portugueses e, por outro, a uma redução da taxa de natalidade. Ora, tudo isso, só faz sobressair os problemas “macro” e “micro” do envelhecimento populacional referidos anteriormente.
De acordo com a agência de notação financeira Moody’s, a economia portuguesa será uma das mais vulneráveis se nada for feito face ao envelhecimento populacional. Portugal está no quinto lugar (para um total doze países mais envelhecidos) no lote dos países que irão sofrer maiores pressões (negativas) de crescimento económico resultante do envelhecimento populacional (à semelhança da Itália, Japão, Grécia e Espanha. Então, qual será o antídoto para se ultrapassar isso? Entre outras medidas, destacamos, a criação pela governação de estímulos financeiros ou não visando o aumento da taxa de natalidade, a abertura à imigração, a adopção de políticas de aceleração do crescimento da produtividade do trabalho (maior produção por habitante, em média), o que exige, um maior esforço de qualificação profissional, um maior aperfeiçoamento das técnicas de gestão das empresas, maiores estímulos ao investimento tecnológico, automação, robótica, etc. Por fim, será de sublinhar que o envelhecimento populacional poderá vir a afectar em maior ou menor grau, o crescimento económico sustentável de um país e o orçamento do Estado de um país.
Concluindo, o fenómeno do envelhecimento populacional exige urgente atenção dos governantes: (1) Menor força de trabalho; (2) Menor crescimento da produtividade laboral; (3) Menor crescimento económico sustentável; (4) Menor contribuição para a Segurança Social; (5) Maior despesa pública de saúde e pensão; 6) Menor receita fiscal e maior despesa social podem acarretar num efeito (negativo) sobre o Orçamento de Estado. Em suma, há que actuar sem hesitações no combate ao envelhecimento populacional desse que não ponha em causa a qualidade de vida das futuras gerações.

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