Correio do Minho

Braga, terça-feira

Efeitos nefastos das redes sociais

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2017-12-19 às 06h00

Jorge Cruz

Um antigo vice-presidente do Facebook alertou há dias para o facto de as redes sociais estarem a “destruir as bases da sociedade”. Segundo este outrora alto dirigente da empresa, com responsabilidades directas na área da expansão de utilizadores, as redes estão a “programar” o cérebro dos cidadãos de tal forma que a sua utilização “elimina o discurso civil e a cooperação, fomentando a desinformação e a mentira”.
As perturbadoras afirmações só podem surpreender pelo facto de terem sido proferidas pelo homem que confessa ter criado uma máquina que “explora vulnerabilidades na psique humana”, facto que, agora, o faz sentir-se com uma “culpa tremenda”.

A triste realidade está aí à vista de todos, é sentida diariamente, embora com diferentes graduações de intensidade, razão porque não deve nem pode ser ignorada. Os sinais aparentemente positivos que os utilizadores se esforçam por obter, tenham eles a forma de corações, de polegares para cima ou meros gostos, não são mais do que fracas compensações criadas pelos programadores de comportamentos para compensar e satisfazer o ego do internauta.
Não viria daqui mal ao mundo se este processo não criasse uma certa confusão entre realidade e ficção, entre verdade e mentira; se, por via disso ou a partir da habituação e dependência, não perdêssemos muito do nosso juízo crítico, muita da nossa capacidade de questionar aquilo que nos é apresentado como verdade absoluta mesmo não o sendo.

Já não se trata apenas da possibilidade real de manipulação de eleições. No campo das hipóteses é possível imaginar o aparecimento de grupos que utilizem esta ferramenta com objectivos menos claros, inconfessáveis mesmo, como seja o de manipular os utilizadores de redes sociais, conduzindo-os para caminhos que voluntária e conscientemente não gostariam de percorrer.
As redes sociais orientam-nos, frequentemente, para trilhos que têm tanto de irreais como de perigosos e, nessa medida, a intensificação da sua utilização, por vezes de forma quase ou mesmo compulsiva, transforma-se num acto maquinal com consequências que podem ser desastrosas. Por um lado, porque exploram vulnerabilidades da psique humana, conforme denunciou o antigo responsável, e, por outro, porque fomentam a propalação de notícias falsas tornando assaz difícil a sua distinção relativamente às verdadeiras.

É também por essa razão, portanto por uma questão, se quisermos, de preservação da higiene mental, que o antigo alto responsável do Facebook recomenda aos milhões de utilizadores que façam uma “pausa a sério”.
“Vocês têm de reflectir, fazer uma introspecção” sobre a forma como se utilizam as redes sociais, recomendou Chamath Palihapitiya, que proferiu estes alertas na Escola de Negócios da Universidade Stanford, na Califórnia. Referindo-se aos comportamentos dos utilizadores, o orador disse que “vocês não se apercebem mas estão a ser programados”, lembrando ainda os “efeitos de curto prazo, de libertação de dopamina que está na origem de ciclos que estão a destruir a forma como a sociedade funciona”. Mas foi ainda mais preciso ao afirmar que “não há discurso cívico, não há cooperação; só desinformação e falsidades”, antes de acrescentar que “não é um problema americano - não é um problema com anúncios da Rússia. É um problema global”.

Curiosamente, Palihapitya, que tinha responsabilidades na área do crescimento da base de utilizadores do Facebook, que hoje supera os dois mil milhões em todo o mundo, não é o primeiro ex-responsável a falar sobre a forma como as redes sociais cativam novos e atuais utilizadores. Antes dele, Sean Parker, um dos fundadores dessa rede social, admitiu que o conceito do Facebook sempre foi, desde o início, explorar a psique humana.
Acontece que em Portugal, e segundo um estudo da Marktest, existem quase cinco milhões de utilizadores das redes sociais, a maior parte dos quais tendo o Facebook como plataforma preferida, mas porventura o aspecto mais gravoso tem a ver com o facto de os portugueses passarem mais de uma hora e meia por dia nas redes sociais.

E são estes utilizadores que se encontram expostos a todo o tipo de campanhas, umas de ódio, outras de difamação, e não exclusivamente de âmbito político, quase sempre através de notícias falsas ou manipuladas. A partilha sucessiva de tais “notícias”, às vezes por milhares e milhares de utilizadores, já causa bastante dano mas, como se tal não bastasse, tem-se assistido também a situações absolutamente incompreensíveis e condenáveis com algumas dessas falsas notícias a serem também publicadas em determinados media.
É certo que as redes desempenham um papel relevante como veículos de denúncia, de mobilização social e de auxílio e solidariedade mas também não é menos verdadeiro que as falsas notícias e as campanhas de intoxicação que as redes propalam constituem uma ameaça real à democracia, conforme de resto tem sido sublinhado por diversos peritos na matéria.

O poder das redes sociais é enorme mas o seu aproveitamento deve ser feito através de uma utilização responsável e criteriosa, que as torne cada dia mais seguras e, nessa medida, menos sujeitas à propagação de notícias falsas ou de campanhas de ódio e difamação.
Creio que existe matéria mais que suficiente para os utilizadores das redes sociais, em particular aqueles mais compulsivos, fazerem a tal pausa para reflexão e introspecção de que falava o antigo vice-presidente do Facebook.
Os problemas que as redes sociais colocam às democracias são reais e cada dia mais graves. Adiar a sua discussão e as consequentes soluções só vai piorar a situação.

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